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Zaratustra e o Niilismo em: das Três Metamorfoses


Sonia Regina Lyra*

Resumo: O espírito de respeito quer a carga mais pesada. A dinâmica apresentada nas “três metamorfoses” implica na capacidade de assimilação, da adaptação, da afirmação da negatividade e da sua conseqüente transformação. O valor milenar do “Tu-deves”, será golpeado e mitigado pela supremacia radical da autodeterminação do “Eu-quero” e “para acabar” o que vai restar é apenas o - nada - apenas uma afirmação santa.

Das Três Metamorfoses

Vou dizer-vos as três metamorfoses do espírito: como o espírito se transforma em camelo, o camelo em leão, e o leão em criança, para acabar.
Muitas são as coisas que parecem pesadas ao espírito, ao espírito robusto e paciente, e todo imbuído de respeito; a sua força reclama pesados fardos, os mais pesados que existam no mundo.

“Que há de pesado para transportar?” diz o espírito transformado em besta de carga, e logo ajoelha, tal como o camelo, e deseja ser bem carregado.

“Qual é a mais pesada das tarefas, ó herói, pergunta o espírito tornado besta de carga, eu a quero assumir, a fim de gozar da minha força.
Será essa tarefa o humilhar-se para mortificar o orgulho? Dar livre curso à loucura para ridicularizar a sabedoria?

Será abandonar uma causa triunfante? Escalar altas montanhas a fim de tentar o Tentador?

Será alimentar-se das glandes e da erva do conhecimento, e fazer jejuar a alma por amor da verdade?

Será, estando doente, expulsar os consoladores e fazer amizade com surdos que nunca ouvem o que pretendemos?

Ou descer a uma água lamacenta, se for a água da verdade, e não afastar de si as frias rãs e os cáusticos sapos?

Ou ainda amar aqueles que nos desprezam e estender a mão ao fantasma que tenta assustar-nos?”

Mas, docilmente, o espírito toma sobre si todos estes pesados fardos; semelhante ao camelo carregado que se apressa alcançar o deserto, também ele se apressa a alcançar o seu deserto.

E aí, nessa extrema solidão, se produz a segunda metamorfose: o espírito torna-se leão. Decide conquistar a sua liberdade e ser o rei do seu próprio deserto.

Busca um último senhor; ele será inimigo desse último senhor e do seu derradeiro Deus; ele quer medir-se como o grande dragão, e vencê-lo.

Mas o que é esse grande dragão que, doravante, o espírito recusa chamar seu senhor e seu Deus? O nome do grande dragão é “Tu-deves”. Mas a alma do leão diz: “Eu-quero!”
“Tu-deves” barra-lhe o caminho, brilhando de ouro, coberto de escamas, e sobre cada uma dessas escamas brilham, em letras de ouro, estas palavras: “Tu-deves”.

Valores milenários brilham sobre essas escamas, e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: “Todos os valores das coisas brilham sobre o meu corpo”.

Todos os valores foram criados no passado, e a soma de todos os valores criados, sou eu. Em verdade, não deverá mais existir qualquer “Eu-quero”!... Assim fala o dragão.

Meus irmãos, para que serve ter este leão no espírito? Porque não será suficiente o animal paciente, resignado e respeitoso?

O próprio leão não está ainda preparado para criar novos valores; mas libertar-se a fim de se tornar apto a criar novos valores, eis o que pode a força do leão.

Para conquistar a sua própria liberdade e o direito sagrado de dizer não, mesmo ao dever, para isso, meus irmãos, é necessário ser leão.

Conquistar o direito a novos valores é para um espírito paciente e laborioso a mais temível das empresas. E por certo que ele vê nela um acto de banditismo e de rapina.

O que ele outrora amava como o seu bem mais sagrado, é o “Tu-deves”. Deve agora descobrir a ilusão e a arbitrariedade na própria base do que de mais sagrado existe no mundo, e conquistar assim, pela violência, o direito a libertar-se dessa prisão; para exercer uma tal violência é necessário ser leão.

Mas dizei-me, meus irmãos, que pode ainda a criança, e de que o próprio leão seria incapaz? Porque deverá ainda o leão roubador tornar-se criança?

É que a criança é inocência e olvido, novo começar, fogo, roda que se move por si própria, primeiro móvel, afirmação santa.

Na verdade, meus irmãos, para jogar o jogo dos criadores é necessário ser uma afirmação santa; o espírito quer agora o seu próprio querer; tendo perdido o mundo, ele conquista o seu próprio mundo.

Falei-vos das três metamorfoses do espírito: como o espírito se mudou em camelo, o camelo em leão, e o leão em criança, para acabar.

Após esta apresentação de uma das dissertações de Assim Falou Zaratustra de Nietzsche, analisaremos inicialmente o significado de espírito. Em geral quando se fala do espírito, como por exemplo que o homem é ou tem espírito, não dizemos nada, pois costumamos dizer que o espírito não é matéria e portanto, usamos defini-lo negativamente. Nietzsche porém, vem nos dizer concreta e positivamente, o que ele é, como se estrutura o espírito. Ele é essencialmente: camelo, leão, criança. O espírito carregador é a matéria do espírito. Somente se tem a capacidade de carregar é que seu peso se torna substancioso, isto é, há como que um aumento do peso receptivo de energia. É somente quando está prenhe dessa recepção carregadora que o espírito pode libertar-se, na dinâmica da luta, do leão. É diante do esvaziamento da força interna das normas e valores que vêm de fora como imposição, que um outro valor mais poderoso, pode ser criado. Quando nem o “Tu-deves” nem o “Eu-quero” como forças antagônicas, têm mais o peso que lhes era atribuído, então surge a criança, pura espontaneidade. É a pura essência do “Tu-deves” e do “Eu-quero”: Não no sentido monolítico do caráter inicial de unidade, mas, de novo na unidade, com o frescor, com o vigor, como o alegre jogo de modulações da Vida em todas as coisas.

Então, em primeiro lugar, o espírito de suportação torna-se camelo e toma sobre si o que há de mais pesado, para que sua força se alegre. Em segundo lugar, a segunda metamorfose ocorre no mais ermo dos desertos, onde quer lutar com seu pior inimigo o dragão do “Tu-deves”, dos valores impostos, para então abrir-se a possibilidade de criar novos valores, tendo dito: “Eu-quero”. Finalmente, em terceiro lugar, o espírito de suportação e de respeito, deve tornar-se criança; tornar-se inocência. Esta síntese aponta para as possibilidades da transformação buscada e esperada, da metamorfose. Como síntese, embora aponte, ainda não mostra como isto se dá. Para Nietzsche, as três metamorfoses estão intimamente ligadas ao niilismo.

A palavra niilismo, de acordo com C. Andler, não foi criada por Nietzsche, mas surgiu do russo Turgueniev, através de seu personagem Bazaroff, em Pais e Filhos, ao denominar niilismo o sentimento de “sa vie manquée” e a grande nostalgia das trevas. Segundo este autor, o uso do termo por Nietzsche vem dos Essais de psychologie contemporaine de Paul Bourget. Para K. Jaspers, ao responder à pergunta “por quê” Deus está morto, Nietzsche, crê reconhecê-la no cristianismo, em cuja interpretação do mundo – isto é, no esclarecimento da moral – oculta-se a fonte do niilismo. Para Paschoal, esse processo do niilismo Ocidental, parece ter sido iniciado por Sócrates, com a pergunta básica “para quê/ por qual finalidade”? e pressupõe um “olhar inquisidor do homem para o seu interior (“conhece-te a ti mesmo”) na busca de causas para o seu agir, do significado e valor de uma intenção que deve expressar uma finalidade (Ziel) que autorize seu agir. A questão é que a legitimação desta ação era, normalmente, entendida como algo que vem de fora, como de uma “autoridade sobre-humana”, que parecia ser externa, passa a ser substituída por uma “autoridade pessoal”, por uma “autoridade da razão”, pelo “instinto social”, ou ainda pela compreensão da “história com um espírito imanente, o qual tem a sua finalidade em si...” Segundo R. de Miranda, é no fragmento do outono de 1887, que Nietzsche faz referência ao niilismo da seguinte forma: “Niilismo: falta o alvo, falta a resposta ao ‘por quê’; o que significa niilismo? – que os valores supremos se desvalorizaram”.

O niilismo usualmente é entendido na perspectiva de uma atitude ou concepção particular e subjetiva, no qual se vê tudo a partir e na direção do negativo, do nada (nihil). É algo como rejeição pessimista e depressiva da vida. O niilismo do qual Nietzsche fala, no entanto, denomina-se Niilismo europeu. O adjetivo “europeu” do niilismo de Nietzsche também não está se referindo à Europa geográfica, nem sequer a uma mundivisão, espalhada pela Europa no século XIX, ao Positivismo, que afirma: somente o que é acessível pela apreensão sensível é real e verdadeira. O Niilismo europeu, torna-se para Nietzsche, o termo para indicar o movimento que caracteriza e domina a história do Ocidente, ou melhor ainda, o movimento que é a própria História do Ocidente. Trata-se portanto de um processo, cujo evento máximo, cuja consumação, se expressa e se resume nas palavras “Deus está morto”. É um movimento que vem de longe, um movimento de fundo, da História do Ocidente e que somente agora começa a lançar suas primeiras sombras sobre a Europa.

O que caracteriza este evento, é a perda de credibilidade do Deus Cristão, interpretado como o sobre-natural (o metá-físico), o mundo supra-sensível, o mundo dos valores e das idéias que constituem a meta, o fim para o qual tende a vida. A tentativa de substituir estes valores por uma infinidade de “ismos”, sejam eles denominados: um mundo melhor, sociedade, progresso, Estado, razão, etc...é a tentativa de preencher o vazio deixado pelos diferentes valores desvalorizados e neste sentido, denominada por Nietzsche como niilismo incompleto.

Para que não fique incompleto, para que chegue à sua consumação, o niilismo completo, consumado e pleno deve não apenas constatar e considerar a desvalorização de todos os valores, mas para que não haja substituição dos antigos valores por valores novos similares. Nietzsche indica a eversão de todos os valores. Somente quando se der essa eversão e fundação da nova ordem de afirmação da Terra, da Vida, o niilismo chega à sua consumação.
No niilismo, ocorre uma “situação de desnorteamento provocado pela falta de referências tradicionais, ou seja, dos valores e ideais que representavam uma resposta aos porquês e, como tais, iluminavam a caminhada humana”.

Isto tudo ocorre, na mesma medida em que o homem se afasta de uma prática religiosa, mas não dos pressupostos desta prática. Desse modo, no campo religioso, a decadência (pressuposto para o niilismo), garante “sua hegemonia, por meio da imposição do seu Deus como Deus único, absoluto” ou seja, ela opera por uma “esperteza de moedeiros falsos”, seus valores são antes uma transfiguração da fraqueza em valor. Enquanto opção por formas de expansão e afirmação da vida, quanto a que opta pela fraqueza e pela supressão dos impulsos básicos, pode-se dizer que ambas, enquanto estratégias de domínio, querem exteriorizar e expandir seu poder.

Segundo Heidegger, Nietzsche resume a sua interpretação do niilismo na breve frase: “Deus morreu”. Daí que, a tentativa de interpretar a “morte de Deus” é equivalente à tarefa de interpretar o que Nietzsche compreende por niilismo.

O desdobramento da história do Ocidente, coloca as condições que apontam o grande temor de Nietzsche, que é a mais fatal das fatalidades: é o “grande nojo ao homem; e também a grande compaixão pelo homem” pois, “supondo que esses dois um dia se casassem, inevitavelmente algo monstruoso viria ao mundo, a “última vontade” do homem, sua vontade do nada, o niilismo”. (GM, III, 14) Esse nojo e compaixão que pode ser designado com a expressão “passivo niilismo”, dispõe também as condições para a emergência de uma outra forma de niilismo, o “niilismo ativo”.

O termo “passivo” designa, para Nietzsche, “um movimento de resistência e de reação”, uma forma de ser que se caracteriza pelo bloqueio, pela inibição (Gehemmt), quando se trata de “lançar-se agressivamente para frente”, no qual a força do espírito pode estar cansada, esgotada, ou, ainda “que cessou de atacar, de criar e erigir novos ideais”.. Por outro lado o “ativo” niilismo, aponta para uma disposição que faz com que, em momentos de pressão das condições da existência, “um ser se distenda, cresça e ganhe poder...” ou ainda “enquanto sinal da potência aumentada do espírito que prospera, se desenvolve, ataca, destrói e propõe outros alvos”.

O vácuo criado pela “morte de Deus” produz o que Nietzsche chama de “estado psicológico”, um estado de desvalorização que emerge para a consciência por três formas que se combinam. “São três portanto, os conceitos básicos que se articulam a este sentimento de ausência de valor (Wertlosigkeit): o de finalidade (Zweck), o de unidade (Einheit) e o de verdade (Wahrheit)”. Estas categorias que levavam ao mundo um valor e com ele o seu fundamento, sendo retiradas, deixam o niilismo presente como uma radical falta de meta (para quê)? bem como, uma indisposição para a busca de novas metas.

Esta sensação de perda de sentido e de falta de meta, surge como um modo de ser submisso, de um “cansaço e fraqueza” ou com um modo de ser de revolta, de hybris, que se traduz numa espécie de dever de destruição, diante da natureza, de Deus e do próprio homem. Ambos são modos de ser do niilismo passivo, onde se constata de que “o mundo não tem mais nenhum sentido” e que, ao mesmo tempo, cria também as condições de pensar em novas formas de valorar que não precisam pressupor nem velhos nem novos fundamentos. Pois, “fixar-se novos ideais, disfarçar-se, adornar-se com vestes e mantos luzentes e, com isso, depreciar a vida e negar a existência, a ilusão, a aparência e as mudanças, nisto se revela uma das modalidades e uma das faces do niilismo” e, por outro lado, “derrubar e destruir esses mesmos valores, antes considerados supremos, atribuir-se novas tarefas, novas autoridades e novos comandos” esta é uma outra modalidade sua. Assim por exemplo, em tempos modernos “a moral adota como seu porta-voz a autoridade da consciência” restando ainda uma “outra forma de que a autoridade pode se revestir como característica típica da filosofia contemporânea: é a ciência histórica” analises estas elaboradas pelo filósofo no outono de 1887.

Do fenômeno da vida participa o agregar-se e desagregar-se de forças, o que significa que a decadência, acima citada, proveniente deste processo de dissolução, não é necessariamente negativa, mas parte de um processo. A degeneração da antiga composição é que é denominada decadência. Uma vez que são os valores que compõe uma determinada agregação de forças, dando manutenção e elevação de uma determinada organização, é sempre uma crise de valores, que estabelecerá o início de um processo de decadência. Esta crise de valores, sugere a necessidade de aniquilar uma organização até então mantida, surgindo a partir de uma outra necessidade, isto é, de sua reinterpretação.

Esta reinterpretação quer um exame mais atento daquilo que passou a ser o “revestimento, jogo de máscaras, seu ocasional endurecimento, ressecamento, dogmatização” (GM, III, 25), para liberar nele a vida que foi bloqueada em função de uma superestimação da verdade ou, “mais exatamente: na mesma crença na inestimabilidade, incriticabilidade da verdade”. (GM,III, 25)

Com isto “um enorme quantum de liberdade” (GM, II, 17) tendo sido eliminado do mundo ou pelo menos, do campo de visão, e tornado como que latente, à força, como um instinto de liberdade reprimido, encarcerado no íntimo, apenas isto, faz surgir em seus começos a má consciência. Como todo processo é contraditório, a mesma força que gera a má consciência é também “a matéria na qual se extravasa a natureza conformadora e violentadora dessa força” (GM, II, 18) que é o homem mesmo e da qual o “deleite em se dar uma forma”, essa “oculta violentação de si mesmo”, essa “crueldade de artista”, lutando para impor-se a si mesmo “a ferro e fogo uma vontade”, “uma crítica”, “uma contradição”, é deste molde que será forjado, desta horrendamente cindida alma, o “vir à luz de uma profusão de beleza e afirmação nova e surpreendente”(GM, II, 18) Fala-se assim, de uma má-consciência ativa. Nesse sentido, os termos “ativo” e “reativo” comportam a possibilidade de “agrupar alguns sintomas que caracterizam certas formas de vontade de poder por seu atuar”.

Isto significa que, uma eversão de valores, uma auto-superação da moral, uma superação do passivo niilismo, se faz necessária. Aqui, o “último homem” e o “além do homem” são realidades que se tornam possíveis pelo desdobramento do mesmo processo.

Com o ativo niilismo, não há qualquer tipo de “solo estável”, “fundamento”, “verdade”, ou “coisa em si”. Sua negação a tudo o que é “absoluto” significa um “sim” ao mundo como ele é, e que eternamente retorna como é” “Esta é a forma extrema do niilismo: o nada (o ‘sem sentido’) eterno” cuja postura já traz em si a eversão/transvaloração de todos os valores, assim como, também, ela é a condição para o homem criador de valores. Neste momento tem-se a forma do niilismo extremo, como última expressão do niilismo ativo, que é um desdobramento do niilismo completo e cuja característica admite a mais terrível de todas as hipóteses possíveis: o eterno retorno do mesmo.

Paradoxalmente, o “niilismo só pode ser vencido por ele mesmo” isto é, como “um pessimismo que se manifesta como um caminho que conduz ao sim dionisíaco, que afirma o mundo tal qual ele é e procura “entender os lados até então negados da existência não somente como necessários, mas também como desejáveis”; desejáveis por eles mesmos e por tudo aquilo que eles mostram de forte, de potente, de abominável, de terrível e verdadeiro”. Para fazer jus a esta absoluta afirmação da Vida, Nietzsche indica a sua auto supressão como uma forma extrema do niilismo: “que toda crença, todo ter-por-verdadeiro é necessariamente falso: porque um mundo verdadeiro não existe absolutamente. Portanto: uma ilusão perspectiva, cuja origem está em nós (na medida em que continuamente necessitamos de um mundo estreito, abreviado e simplificado). – que a medida da força está em até que ponto podemos admitir para nós mesmos a aparência e a necessidade de mentira sem que dela morramos. Neste sentido, o niilismo, enquanto negação de um mundo verídico, de um ser, poderia tornar-se uma maneira divina de pensar:....”.

Após esta breve avaliação do significado do niilismo, retomaremos a linguagem articulada com as três metamorfoses.

Para o espírito de suportação, ocorre que o não diante dos valores vigentes até agora, procede do sim à nova instauração de valores, ou seja à transmutação de todos os valores. E, metaforicamente, “onde” isto se dá? No deserto. É aqui que será constatado que todo o acontecimento, toda transformação, é simultaneamente, “começo”, “meio” e “fim”, ou seja, é dada como um perpassar, como uma travessia do emergir e instaurar-se da Vida, da Existência. Antes é o “nada”(nihil). Antes, nem nada é. Antes é o que não há. Daí ser este, um acontecimento originário. Assim, da instauração à superação do niilismo, há apenas o nada, pois a Vida, a Existência – não quer nada, ou melhor, nem quer, nem não quer. É puramente fluxo. Desde nada para nada; de nenhum “lugar” para nenhum “lugar”. Mas, pura gratuidade, sem porquê, nem para quê. O recolher-se, o concentrar-se, o suportar o deserto, é passagem, travessia. Este nada, pleno, é convite para a conquista desta dimensão, cuja travessia constitui, por assim dizer, a “meta”. Não há recompensa. A criança não espera recompensa, brinca. Alegra-se com o jogo. Mas, antes, é preciso aprender a agüentar, suportar o deserto. Penúria, dureza, aridez, esterilidade, indiferença, monotonia – a inospitabilidade do deserto. Niilismo. “Deus morreu”, seu “lugar” permanece vazio.

É aí, no meio do deserto que pode se revelar a têmpera de um homem. É aí que a vontade se revela e se fortalece, ou sucumbe. É na forja do calor do deserto que o caráter é moldado, ou decai, fraqueja, des-anima. Num artigo escrito para Ensaios de Filosofia, G. Fogel, está falando de Riobaldo, o personagem-mor de Grande Sertão; veredas, de Guimarães Rosa e o compara ao personagem de Crime e Castigo de F. Dostoievski e diríamos apresentando as metamorfoses do espírito proposta por Zaratustra: O deserto – o liso, o áspero, o adverso, o hostil – é o que resiste e se opõe (o “Dragão” do “Tu-deves”). Mas é isto que é preciso com-querer, em se querendo o que se quer (o “Leão” do “Eu-quero”). Por isso, no deserto, a vontade, isto é, a determinação ou a têmpera do existir, é posto a prova. Jamais se quer verdadeiramente o que se quer, se não se com-quer o que leva e possibilita (à) a consumação de nosso querer. É, por isso, um tempo de paciência, de espera contida – de resistência e de suportação no meio do caminho, que é sempre todo e cada caminho. Pois caminho é sempre só meio do caminho. Deserto é tempo de atravessamento e perpassamento do e pelo próprio caminho. É, então, neste deserto, que a vontade precisa se sustentar – precisa se tornar autogerador, isto é, vir a crescer desde si. Portanto, faz-se alma, Vida – “Psyché”. [...]É ainda e principalmente o lugar e a hora que se é posto à prova, porque é também o lugar e a hora da tentação, do desvio, da sedução, quer dizer, justo na hora que mais se precisa querer, é também a hora da volta, do retorno do desânimo, do amolecimento do ânimo, do decair e fraquejar e se entregar e se abandonar ao fracasso, à fraqueza, ao sabor do deserto, da monotonia, da lassidão, do deixar-se arrastar e levar pela correnteza do inferno, do demônio – do espírito que sempre diz, que sempre sussurra: NÃO!! É o tempo que o sim precisa suportar a verrumação do não. É preciso ter coragem. Inteiriçar-se todo, quer dizer, concentrar-se em si, no próprio, e ser desde a decisão em favor do próprio, para o próprio. O corajoso, que é o forte e o inteiriço, é aquele que quer no deserto, na aridez, ali onde a vida se recusa, portanto, aquele que quer quando tudo que se quer se nega, se recusa. É preciso ser marcado, estigmatizado pelo sal – o sal como têmpera e tempero e, por isso, o tempo certo da Terra, da Vida. [...]Mais uma vez, não é tempo de “pensar”. Não é hora de hesitante mediação ou intermediação, mas agüentar, suportar – para atravessar, perpassar em escuta[...]pelo aberto do deserto”.

É lá, no meio da travessia, da errância deste deserto, cada um com o seu, onde parece ecoar uma lembrança, uma memória que se faz lugar de retorno que se faz presença como uma ânsia, uma busca. Neste sentido, a busca é cadência, ritmo, ação de vir a ser o que se é. Um retorno à origem. Seguindo ainda, o pensamento de G. Fogel: “Primeiro”, aqui, quer dizer inaugurador, fundador e, neste sentido, arcaico, originário. O originário é o determinante. E determinante é aquilo que, ao longo de um movimento, de um percurso, insiste como o que persistentemente atravessa. É, portanto, o que per-faz, em per-sistindo, per-passando e assim, perdurando. Ele, o originário, é o “tempo”, o “aion”, do devir de um possível acontecer. O “per”, acima escondido, fala do vigor ou da força de ser “ao longo de”. Assim, originário, ao contrário de mero início, que se abstém e se exime depois de, de fora, des-interessadamente, dar a piparote ou o arranque inicial, é o que está sempre se originando. Originário fala da insistência do originar-se de origem, do começar de começo. Originário é, portanto, o que insistentemente se re-pete, o que insistentemente precisa se repetir, isto é se re-tomar. Assim, o acontecimento arcaico ou originário – o começo – é privilegiado, ele tem ou é um privilégio, quer dizer, uma lei própria: numa obra, isto é, ao longo de um movimento de perfacção, o acontecimento ou o fato originário é o que acontece em todo acontecer; é o que sub-fala em todo falado e mesmo a força do que se cala em tudo que é aí calado. “Assim, na verdade, toda obra, ou seja, cada uma, é perfacção e então perfeição de princípio, de um princípio, a saber, do seu ou da sua origem. A obra é sua origem própria brotando, nascendo, e renascendo desde si, movendo-se a si própria – Vida. A insistência e a persistência do acontecimento “primeiro”. Com toda propriedade, com toda precisão, é dito que foi um fato que, um dia, “se deu”, “se abriu”. E “de repente”, súbita e imediatamente – como o raio. Este dar-se e abrir-se indica, ao mesmo tempo, a auto-nomia e a trans-cendência do acontecimento, a saber, algo que vem, põe-se e impõe-se e que está para além do arbítrio, da vontade, do controle ou da decisão daquele para o qual tal fato, tal acontecimento se dá, se abre. Este é tomado, quer dizer, determinado por tal acontecimento. Abre-se e, com a mesma subitaneidade do seu abrir-se, põe-se e impõe-se inapelavelmente, com a evidência e a irrevogabilidade do absolutamente necessário. É um acontecimento que, pelo seu caráter de irrevogabilidade, posto pelo instantâneo, dá-se, abre-se ou desabrocha “feito coisa feita” (!!) – isto é, fato e, mais, “factum”. Este “factum”, que não é de coisa, mas de um modo de ser que se faz poder-ser ou possibilidade, é, na sua mobilidade ou nas suas vicissitudes, destino, estória. (...) O acontecimento originário é, sempre, o lugar absoluto – o “âmbito”, a “circunscrição” plena”.O querer, neste tempo de deserto, deve ser refundamentado. Isto é, a vontade deve se tornar una (não-dividida), por isso decisiva, corpo-a-corpo, encarnada, engajada. Nisto nos aproximamos do significado da soberania do “Eu-quero” do leão sobre o “Tu deves” do dragão. “Eu-quero” é a disposição do querer que nasce sem orgulho, fuga, subterfúgio, apego. Essa disposição do querer tem que enfrentar e lutar com o dragão do “Tu-deves”, que pode fascinar pelo seu brilho dourado: “Tu-deves” barra-lhe o caminho, brilhando de ouro, coberto de escamas, e sobre essas escamas brilham como letras de ouro, estas palavras: “Tu-deves”.

“Tu-deves” é a tentação de realizar as coisas, de agir, de pensar, de sentir, por pura superficialidade, sem engajamento, por uma determinação vinda de fora, “sem pé nem cabeça”: “coberto de escamas”. Escama é aquilo que só aparece por fora, geralmente está para esconder algo, não atinge profundidade, é superficial. A disposição do querer límpido deve lutar contra uma crença que não envolve desde dentro. Crença em um Deus que está totalmente fora, cuja única relação que impõe é a do cumprimento dos preceitos milenares da tradição. Enquanto este “Eu-quero” não se consolida em espírito de suportação, o niilismo experimentado, embora condição da possibilidade de um niilismo ativo, pode não ser mais que niilismo passivo: “Nós habitamos, pois, essas cavidades, embora não o notemos: cremos que estamos a morar na superfície superior da Terra, da mesma forma como acreditaria morar na superfície do oceano aquele que habitasse o seu fundo, pois, vendo o sol e os demais astros através da água, haveria de tomar o oceano por um céu. Sua indolência e fraqueza jamais lhe permitiriam vir à flor do mar, nem, uma vez emerso da água e volvida a cabeça na direção desses lugares, ver como são mais puros e mais belos do que os outros, sobre os quais aliás ninguém o poderia informar, por jamais tê-los visto. É mais ou menos a mesma coisa que sucede a nós. Morando num buraco da Terra, acreditamos estar em sua superfície exterior, e damos ao ar o nome de céu, como se os astros de fato planassem no ar, nosso céu. O caso é bem o mesmo: por fraqueza e indolência estamos impossibilitados de subir até o ar superior. Se alguém escalasse a parte superior da Terra, ou voasse com asas, esse alguém haveria de contemplar o que existe por lá, e se sua natureza fosse bastante forte para lhe permitir uma observação prolongada, verificaria que aqueles é que são o céu verdadeiro, a luz verdadeira, e a Terra verdadeira – assim como os peixes, que sobem do mar, vêem o que há em nossa Terra”. Não é esta passagem um convite para o autoconhecimento? “Conhece-te a ti mesmo” - esculpida no dintel do templo de Delfos, depois de mais de dois mil anos, esta frase continua com todo o seu peso e seu mistério. Que espírito é esse que se transforma?

É o espírito de suportação, o camelo. Enfrenta suportando, vence, deixando-se ocupar, assumindo a negatividade, o niilismo. O seu Não, a sua resistência é dizer conscientemente Sim, para “ver até onde agüenta”. O poder-carregador do camelo, tem elasticidade, não cai sob o peso, não sucumbe. Nisto, encontra-se a passagem do niilismo passivo, para o niilismo ativo. Sua vitória é assimilar, aniqüilar, assumindo, trans-formando. Camelo é o quilate da resistência. A partir das considerações a respeito da realidade espírito, notamos que ela existe numa tríplice perspectiva: de uma pulsação vital, necessária e essencial. Mas que pode estar envolta em sentimentos como que de um incômodo do qual não se sabe a origem, de secura, falta de sentido, vazio pertinente; envolta em situações de contradição com o que consideramos o normal da vida, niilismo.

Na transformação seguinte, encontramos o leão. A sua realização consiste em não tolerar nada nem ninguém que seja dominador, acima dele, é o rei dos animais. Uma constestação radical contra tudo quanto limita a gratuidade do “Eu-quero”. O leão luta para abrir caminhos, rasgar espaços, para tornar-se Senhor do deserto. Não aceita nenhuma imposição que venha de fora, portanto, para tal, Deus tem que estar morto. Todo o valor, toda a norma, que não venham da autodeterminação criativa, do “Eu-quero” é inimigo. O leão ainda não é o criador dos novos valor, mas aquele que abre as possibilidades, que cria a liberdade para a criação de novos valores.

Essa aventura de transformação é cheia de desafios, conflitos e resoluções de conflitos, perdas e ganhos, tentações, purificação e burilamento. Zaratustra nos convida a entrar para a dinâmica do espírito de nosso íntimo mais íntimo, onde as “três metamorfoses” não se apresentam com um “porquê”, nem um “para quê”. Pois, ele não parte de nossas explicações conscientes que são sempre post factum, mas parte da experiência originária, sempre anterior a toda e qualquer explicação ou representação do ego empírico. Assim, pois, a transformação começa no camelo e termina na criança: “... para acabar”. “Para acabar”, no texto, porém, não tem aquele significado que normalmente entendemos por fim, onde depois dele não existe mais nada – não é o sentido do ponto final e “caputz”. “Para acabar” está dentro do simbolismo trino, no sentido do alvo, da meta, que é o fim num sentido originário: de finalidade, objetivo. Ora, o fim entendido desse jeito revela mais uma vez a tônica do “toque inicial”, isto é, o processo que ele desencadeia é cíclico, ele é o começo e o fim em si mesmo. No entanto é percebido um crescimento, um desenvolvimento a partir desse ponto cíclico. “(...) o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”

Zaratustra não faz menção do deserto no início da transformação nem em seu final, o deserto se apresenta, em seu dizer, no meio do texto: “(...) semelhante ao camelo carregado que se apressa a alcançar o deserto, também ele se apressa a alcançar o seu deserto. E aí, nessa extrema solidão, se produz a segunda metamorfose: o espírito torna-se leão (...). A posição da imagem do deserto, em nosso texto, é pertinentemente significativa: nos mostra como devemos entender e encarar a transformação da psique no tempo, para onde o Espírito se transforma a partir e dentro do toque inicial. O meio tem essa idéia onde tudo se concentra, onde surge o tempo favorável dos acontecimentos. Diz G. Fogel: “(...) viver é ser sempre já no “meio” do viver, do remoer; sempre já e só jogado no fazer, no ir e no vir , no “meio” do agir e da lida, a saber, sempre já no elemento, que é o próprio viver (...)”

Assim, o meio do tempo significa a essência do tempo (muito bem representado na tríade camelo, leão, criança, que simboliza o processo de transformação da psique no tempo). Usualmente, o tempo para nós é dividido em três categorias que distinguimos entre passado, presente e futuro. No entanto, percebemos que o que foi, foi um dia presente e o que será, será um dia presente. O presente, o agora é a essência do tempo. Santo Agostinho afirma que tudo o mais não existe, passado, futuro, senão o que existe agora, isto é o presente ( aquilo que é [essência = ser] agora).

A respeito dessa essência encontramos em M. Eckhart o ponto de referência da dinâmica do deserto, do processo da transformação do espírito. Diz ele, em um de seus sermões: “(...) Se eu tomar um segmento do tempo, ele não será nem o dia de hoje e nem o dia de ontem. Mas se tomar o instante, haverei de conceber todo o tempo em si. O instante, em que Deus criou o mundo, está tão perto desse tempo como o instante em que agora falo, e o dia mais novo está tão perto desse instante como o dia de ontem.” Por sua vez o centro do processo, o deserto, é o que Zaratustra chama de “extrema solidão”. Solidão é o pano de fundo da transformação da psique. O deserto é uma categoria arquetípica que remete para essa dimensão. Nascemos sós, nossas mais profundas e existenciais decisões são tomadas solitariamente e morreremos sozinhos. Somos cada vez um só, nosso nascimento é único, nossa vida é única e a morte é igualmente única. Travessia é a tônica do deserto, ele deve ser atravessado ou somos na maioria dos casos atravessados, perpassados, traspassados por ele. Ele diz passagem, pathos, assim como a morte, assim como a vida. Ele é cercado de imagens: uma amplidão de uma terra sem fim, o calor abrasador, a areia fervente que afunda os pés e parece paralisar os nervos e os músculos. A fome, a sede. A penitência, o jejum. O andar durante horas, dias, meses e não encontrar ninguém. Os inesperados escorpiões e as pavorosas serpentes. Os urubus comedores de carniça – a espera de sua carne morta. Mas também a sombra da palmeira refrescante; os grandes oásis da água pura e límpida, da hospitaleira vila, onde se acha repouso e remédio para as feridas. As noites frias e a lua plena tendo por companheiras as estrelas muito lindas que dão direção e esperança na caminhada. As caravanas de mercadores que socorrem em momentos inesperados e também o bando de assaltantes que leva tudo e que fica a espreita nas dunas de areia. Os ídolos de ouro fundido, fabricados por mãos humanas e que depois são moídos feito pó e assim assimilados com a água do julgamento. As tábuas das Lei. As reclamações, as lamúrias, as grandes dores, os acessos de violência e revolta a pedir morte. As tentações e o tentador. As miragens, muitas, milhares, das fantasias as mais reais possíveis. As visões, das mais terríveis às mais esplendorosas. As tempestades de areia a cegar a vista.

No deserto tudo vira questão, até as próprias perguntas: O quem fui e o quem serei são aplacados pelo violento, irreversível, inesperado e apressado quem sou eu e quem és tu. Acolher o deserto é a grande descoberta estranha e fascinante que nos propõe o toque inicial do processo de individuação, como nos dizeres de Jung: “Individuação é o processo (caminho) pelo qual a pessoa vai se tornando progressivamente durante sua vida, o ser pleno, unificado, tal como almejado por Deus. Queremos agora, incluir nesta abordagem, alguns conceitos de Jung, pois nos serão enriquecedores com certeza.

No caminho de individuação “há uma expansão gradual da consciência do ser, e também uma capacidade sempre maior da personalidade consciente em refletir o Self”. O “coração e a essência” do individualismo consistem na tarefa de conhecer-se a si mesmo e de sua exigência irresistível de “ser si mesmo”, de acordo com a natureza do indivíduo, e não de outra pessoa, de ser autêntico e não de má fé. Mas o que é o si mesmo do indivíduo? É “a soma total dos conteúdos conscientes e inconscientes” e, daí que individuação significa nada menos do que existir conscientemente realizar ou concretizar o pleno potencial de cada um.

Significa, nas palavras de Jung: “O desenvolvimento ótimo de todo ser humano individual, para o qual uma vida inteira, em todos os seus aspectos espiritual, social e biológico, é necessária. A personalidade é a realização suprema da idiossincrasia inata do ser vivo. É um ato de grande coragem frente à vida, a afirmação absoluta de tudo o que constitui o indivíduo”. Pois, “o desenvolvimento da personalidade ... é uma questão de dizer sim a si mesmo, de se considerar como a mais importante das tarefas, de ser consciente de tudo o que se faz, mantendo-se constantemente diante dos olhos em todos seus dúbios aspectos”. Assim como o processo de individuação se dá em extrema solidão, assim também, as metamofoses do espírito:

O texto de Nietzsche, prossegue afirmando que o espírito transformado em criança “... quer agora o seu próprio querer”. O vigor da criança é a pura autodeterminação positiva. Não há mais inimigos. Tudo é dela. Tudo parte dela, com facilidade. Não é, portanto luta de libertação, mas jogo. É brincar. É um início absolutamente novo, sem predeterminação, sem preocupação. É o transbordar livre da força fontal. A dinâmica e o processo da força transbordante. O jogo, o brincar, não é, no entanto, uma veleidade idílica, ou uma mera brincadeira, mas sim, o dar-se todo no arriscar, no jogar tudo, colocar tudo numa cartada, no salto da inocência. O querer assim refundamentado, como já dissemos, é convicto, firme, decidido, límpido, mas é também jovial, generoso, alegre, criador, flexível (“que se dobra sem se romper”). O espírito transformado em criança significa inocência.

Uma perspectiva psicológica do espírito

Assim, o homem, em específico o homem moderno, não sabe onde repousam suas aspirações e inspirações mais profundas. Em outras palavras, o espírito parece não encontrar morada na vida de compreensão moderna. Ao falar psicologicamente do espírito, Jung diz: “Não pretendo, porém, cometer o erro de atribuir à religião algo que em primeiro lugar é devido a incompetência humana. Assim pois não me refiro a uma compreensão melhor e mais profunda do cristianismo, mas a uma superficialidade e a um equívoco evidentes para nós. A exigência da “imitatio Christi”, isto é, a exigência de seguir seu modelo, tornado-nos semelhantes a ele, deveria conduzir o homem interior ao seu pleno desenvolvimento e exaltação. Mas o fiel, de mentalidade superficial e formalística, transforma esse modelo num objeto externo de culto; a veneração desse objeto o impede de atingir as profundezas da alma, a fim de transformá-la naquela totalidade que corresponde ao modelo. Dessa forma, o mediador divino permanece do lado de fora, como uma imagem, enquanto o homem continua fragmentário, intocado em sua natureza mais profunda.(...) Cristo, enquanto modelo, carregou os pecados do mundo.

Ora, quando o modelo permanece totalmente exterior, o mesmo se dá com os pecados do indivíduo, o qual se torna mais fragmentário do que nunca; o equívoco superficial em que incorre lhe abre o caminho fácil de jogar literalmente sobre Cristo seus pecados, a fim de escapar de uma realidade mais profunda, e isto contradiz o espírito do cristianismo. Esse formalismo e afrouxamento foram a causa da Reforma, mas são também inerentes aos protestantismo. No caso do valor supremo (Cristo) e o maior desvalor (o pecado) permanecerem do lado de fora, a alma ficará esvaziada; faltar-lhe-á o mais baixo e o mais alto. A atitude oriental (principalmente hindu) representa o contrário dessa atitude: o mais alto e o mais baixo estão dentro do sujeito (transcendental). Por este motivo o significado do “atman”, do si-mesmo, é levado além de todos os limites. No homem ocidental, no entanto, o valor do si-mesmo desce até o grau 0. Isto explica a desvalorização generalizada da alma no ocidente. Quem quer que fale da realidade da alma será censurado por seu “psicologismo” e quando se fala em psicologia é neste tom: “é apenas psicológico”. A idéia de que há fatores psíquicos equivalentes a figuras divinas determina a desvalorização destas últimas. Em outro momento ele a chama de uma presença de natureza espiritual, como se pode perceber na experiência primitiva: Creio que estas alusões são suficientes para mostrar de que modo o homem primitivo experimentou a alma. O psíquico aparece como uma fonte de vida, um “primum movens”, uma presença de natureza espiritual mas objetiva. Por isto o primitivo sabe conversar com sua alma: ela tem voz dentro dele, porque simplesmente não se identifica com ele nem com sua consciência. Para a experiência primitiva o psíquico não é, como para nós a quintessência do subjetivo e do arbitrário; é algo de objetivo, subsistente em si mesmo e possuidor de vida própria. Talvez não consigamos estabelecer racionalmente uma diferença entre espírito e alma. Em primeiro lugar porque perceberemos uma semelhança quase idêntica se nos reportarmos aos seus termos originais: O nome latino “animus”, espírito, e “anima”, alma, têm o mesmo significado do grego “anemos”, vento. A outra palavra grega que designa o vento, “pneuma”, significa também espírito. No gótico, encontramos o mesmo termo sob a forma de “us-anan”, “ausatmen”(expirar), e, no latim, “an-helare”, respirar com dificuldade. No velho alto-alemão, “spiritus sanctus” se traduzia por “atum”, “atem”.

Respiração em árabe, é “rih”, vento, “ruh”, alma, espírito. A palavra grega “psyche” tem um parentesco muito próximo com esses termos, e está ligada a “psycho”, soprar, a “psychos”, fresco, a “psychros”, frio e a “physa”, fole. Estas conexões nos mostram claramente que os nomes dados à alma no latim, no grego e no árabe estão vinculados á idéia de ar em movimento, de “sopro frio dos espíritos”. É por isto, talvez, também que a concepção primitiva atribui um corpo etéreo e invisível à alma”. Jung, diz ter feito estas reflexões, “numa tentativa de resolver este problema: o conflito entre natureza e espírito não é senão o reflexo paradoxal da alma: ela possui um aspecto físico e um aspecto espiritual que parecem se contradizer mutuamente, porque, em última análise, não compreendemos a natureza da vida psíquica como tal. Todas as vezes que o intelecto humano procura expressar alguma coisa que, em última análise, ele não compreendeu nem pode compreender, ele deve expor-se se é sincero, a uma contradição, deve decompô-la em seus elementos antitéticos, para que possa captar alguns de seus aspectos. O conflito entre o aspecto físico e o aspecto espiritual apenas mostra que a vida psíquica é, em última análise, qualquer coisa de incompreensível. É, sem dúvida alguma, nossa única experiência imediata. Tudo o que eu experimento é psíquico. A própria dor física é uma reprodução psíquica que eu experimento. Todas as percepções de meus sentidos que me impõem um mundo de objetos espaciais e impenetráveis são imagens psíquicas que representam minha experiência imediata, pois somente eles são os objetos imediatos de minha consciência. Minha psique, com efeito, transforma e falsifica a realidade das coisas em proporções tais, que é preciso recorrer a meios artificiais para constatar o que são as coisas exteriores a mim; é preciso constatar, por ex., que um som é uma vibração de ar de uma certa freqüência e que uma cor é determinado comprimento de onda da luz. No fundo estamos de tal modo envolvidos em imagens psíquicas, que não podemos penetrar na essência das coisas exteriores a nós. Tudo o que nos é possível conhecer é constituído de material psíquico. A psique é a entidade real em supremo grau, porque é a única realidade imediata.

Se tentarmos penetrar mais profundamente no significado deste conceito de realidade, parece-nos que certos conteúdos ou imagens provêm de um meio ambiente supostamente físico, de que nossos corpos fazem parte, enquanto outros procedem de uma fonte dita espiritual, aparentemente diversa do mundo físico, mas que nem por isso são menos reais. Que eu imagine o carro que desejo comprar ou estado em que atualmente se encontre a alma de meu falecido pai, que eu me irrite com um fato exterior ou com um pensamento são, psiquicamente falando, coisas igualmente reais. A única diferença é que uma se refere ao mundo das coisas físicas e a outra ao mundo das coisas espirituais. Se transponho minha noção de realidade para o plano da psique, onde esta noção está em seu verdadeiro lugar, o conflito entre a natureza e o espírito como princípios explicativos antitéticos se resolve por si mesmo. A natureza e o espírito se convertem em meras designações de origem dos conteúdos psíquicos que irrompem em minha consciência.(...) O fato de a experiência imediata ser exclusivamente de ordem psíquica e, por conseguinte, que a realidade só pode ser de natureza psíquica, explica porque o homem primitivo considera os espíritos e os efeitos mágicos com o mesmo concretismo com que julga os acontecimentos físicos. Ele ainda não fragmentou sua experiência original em contrastes irredutíveis. Em seu universo se interpenetram o espírito e a matéria, e os deuses ainda passeiam por florestas e campos. O homem primitivo se acha ainda encerrado, tal qual uma criancinha mal nascida, nos sonhos de sua alma e no mundo tal qual ele é realmente, não desfigurado ainda pelas dificuldades de conhecimento que se interpõem no caminho de um intelecto que dá os seus primeiros passos.

Da desagregação do mundo original em espírito e natureza, o Ocidente salva a natureza na qual acredita por temperamento e em que se tem envolvido sempre e cada vez mais, através de todas as tentativas dolorosas e desesperadas de espiritualização. O Oriente, por sua vez, escolheu o espírito, proclamando que a matéria é Maia – ilusão – e continua mergulhado em seu torpor crepuscular, cercado pela miséria e pela sujeira asiáticas. Mas como há uma só terra e o Oriente e o Ocidente não conseguiram rasgar a humanidade una em duas metades, a realidade psíquica mantém a sua unidade original e espera que a consciência humana progrida da crença de uma e da negação da outra realidade, para o reconhecimento das duas como elementos constitutivos de uma só alma.”

Deste modo, o espírito, sob a ótica da alma, é visto como um princípio que atua na vida através das emoções, sentimentos, percepções, afetos, intuições e pensamentos. É o modo como se dá no indivíduo, a emoção, o sentimento, a percepção, a intuição e o pensamento. Segundo Jung, “(...) os arquétipos, quando surgem, têm um caráter pronunciadamente numinoso, que poderíamos definir como “espiritual”, para não dizer “mágico”.

Consequentemente, este fenômeno é de maior importância para a psicologia da religião. O seu efeito, porém, não é claro. Pode ser curativo ou destruidor, mas jamais indiferente, pressupondo-se, naturalmente, um certo grau de clareza. Este aspecto merece a denominação de “espiritual” por excelência. Isto é, acontece não raras vezes que o arquétipo aparece sob a forma de espírito nos sonhos ou nos produtos da fantasia, ou se comporta inclusive como um fantasma. Há uma aura mística em torno de sua numinosidade, e esta exerce um efeito correspondente sobre os afetos. Ele mobiliza concepções filosóficas e religiosas justamente em pessoas que se acreditam a milhas de distância de semelhantes acessos de fraqueza.

Freqüentemente ele nos impele para o seu objetivo, com paixão inaudita e lógica implacável que submete o sujeito ao seu fascínio, de que este, apesar de sua resistência desesperada, não consegue e, finalmente, já não quer se desvencilhar, e não o quer justamente porque tal experiência traz consigo uma plenitude de sentido até então considerada impossível.(...) Malgrado ou talvez por causa de sua afinidade com o instinto, o arquétipo representa o elemento autêntico do espírito, mas de um espírito que não se deve identificar com o intelecto humano, e sim com o seu spiritus rector(espírito que o governa). O conteúdo essencial de todas as mitologias e religiões e de todos os ‘ismos’ é de natureza arquetípica. O arquétipo é espírito ou não-espírito, e o que ele é, em última análise, depende da atitude da consciência.”

Temos assim, alguns pontos chaves da compreensão de Jung, no texto intitulado: Espírito e Vida. Outro aspecto, talvez o mais importante é descrito nos termos “atitude” ou “disposição”. Não seria o que ordinariamente se entende por “posicionar-se diante de determinada coisa”, ou uma “atividade do eu que implica uma intencionalidade”. “Atitude” ou “disposição”, aqui, é uma realidade que só se percebe subtilmente. Quando algumas vezes dizemos ser o “espírito do ambiente”, ou o “espírito de tal família”, ou o “espírito que reina por trás dessas discussões”, ou quando dizemos “agora sopra um espírito novo” (renovação de mentalidade). E neste sentido está, também, além da vontade do ego. Pode a atitude impor-se de fora (pelo contágio) ou de dentro do indivíduo. Jung afirma que a atitude se baseia a princípio, “consciente e inconscientemente em sentenças que têm freqüentemente o caráter de um provérbio”. E o interessante é quando diz que: “Muitas vezes, a atitude se caracteriza apenas por uma única palavra, que geralmente expressa um ideal. Acontece não poucas vezes que a quintessência de uma atitude não é uma sentença nem um ideal, mas uma personalidade que se reverencia e se imita”. Esta revela a quintessência, isto é, a essência daquelas experiências profundas e significantes de esforços individuais: a “soma de percepções e conclusões, condensadas em poucas palavras expressivas”.

Para Jung, quanto mais absoluta e mais compulsiva for a atuação dessas sentenças (ou também chamadas de “idéias-mestras”: no sentido de que governam nossa conduta), tanto mais ela se torna um “complexo autônomo” que se contrapõe a consciência do eu. Mas, de fato, e aqui entra outro ponto chave da compreensão, este “espírito” só é espírito mesmo (complexo autônomo) quando: “(...)há dentro de nós algo que lhe corresponde, ou seja, algum afeto que esteja pronto a se apoderar da forma apresentada. Somente através da reação dos sentimentos é que a idéia, ou o que possa ser o princípio orientador, se torna um complexo dominante. Sem esta reação, a idéia continuaria um conceito submetido ao arbítrio da consciência, uma simples peça de calcular intelectual sem poder de determinação. A idéia que for um mero conceito intelectual não pode ter influência na vida, porque neste estado ela não passa de um palavra vazia de sentido; e, inversamente, quando a idéia adquire a importância de um complexo autônomo, ela passa a atuar sobre a vida do indivíduo através de suas emoções e sentimentos”.

Logo, é importante.

*Sonia Regina Lyra, Psicóloga, CRP 08/0745, Analista Junguiana (Inst. Junguiano SP, Assoc. Junguiana do Brasil - AJB e Intern. Association for Analytical Psychology - IAAP). Mestre em Filosofia (PUCPR) e Doutora em Ciências da Religião (PUCSP). É presidente do ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião.sonia@ichthysinstituto.com.br

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