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Depressão na terceira idade


Gizelda Maria Capilé de M. Silva*

*Psicóloga Clínica – Formada pela Faculdade de Psicologia (UFRJ); Especialista em Psicanálise – (UFMT); Experiência profissional de 27 anos em Depressão e Psicogeriatria; Pós - Graduanda em Psicologia Analítica e Religião – Curitiba/PR; Realiza Trabalhos em consultório com adultos e idosos; Coordena grupo de Melhor Idade do Projeto “Aprendendo a Viver” no Espaço Psicopedagógico Humanizar; Diretora do Centro de Estudos de Psicologia Junguiana (Cuiabá/MT)

Inúmeras vezes me deparei com essa pergunta: “A depressão é uma doença própria da velhice?”

Segundo Heber Soares Vargas (1992), o envelhecimento produz uma lentificação dos processos psíquicos e o estreitamento do espaço vivencial. Considerando que essas características estão presentes também na depressão, podemos afirmar que a depressão pode ser vista como uma forma transitória de envelhecimento, mas, não se caracteriza como uma doença própria da velhice.

Muitos estudos mostram que a depressão é muito mais comum do que se possa imaginar. É só pararmos para pensar que logo nos lembraremos de algumas pessoas de nossas relações sociais ou afetivas que apresentam ou já apresentaram um quadro depressivo. Infelizmente poucas são as pessoas que procuram tratamento adequado, principalmente por falta de informação. Depressão é um problema médico e psicológico mais comum que diabetes e hipertensão e que passa despercebido pelos familiares, pela própria pessoa e até mesmo pelos profissionais da saúde.

Com base em estudos feitos por pesquisadores, sabe-se que sintomas e sinais como insônia, insatisfação, sentimento de desesperança, preocupação excessiva, irritabilidade, perda de energia, idéias de morte, sintomas físicos persistentes que têm pouca melhora com tratamentos habituais, denotam a presença de depressão.

O envelhecimento é um processo natural de todo organismo e no ser humano se apresenta primordialmente como uma profunda transformação existencial, modificando suas relações consigo mesmo, com o tempo e com o mundo à sua volta.

Captando a totalidade do existir podemos considerar que o envelhecimento é uma fase do desenvolvimento humano que pode ser vivida em sua plenitude ou amargada durante longos anos.

Na vida não podemos optar por não envelhecer, mas, podemos fazer a escolha de como vivenciar esta etapa com saúde e alegria ou com doenças e sofrimento de toda ordem.

A dor e a perda são próprias da vivência do ser humano, porém o sofrimento é uma construção de nossas angústias e incertezas. Sabemos, por exemplo, que a tristeza é um sentimento que faz parte da vida, assim como a alegria, o amor ou a raiva. É natural ficarmos tristes pela perda de um ente querido, de um emprego, de um relacionamento ou de um amigo que partiu, porém, quando a pessoa , além da tristeza, deixa de cumprir compromissos, afasta-se de todos, deixa de fazer sua higiene pessoal, ingere alimentos ou bebidas em demasia ou não se alimenta, então podemos pensar em depressão.

Se considerarmos que a depressão é uma doença que afeta o indivíduo em sua dimensão biopsicossocial e que a velhice é um período em que a pessoa confronta-se com uma série de impossibilidades e vulnerabilidades, então nos permitimos concluir que o idoso pode estar mais propenso à depressão que um adulto jovem ou uma criança.

Tomando como base a minha experiência clínica, posso afirmar que a depressão é uma doença da alma e uma importante oportunidade de transformação para o ser humano.

É uma situação de grande sofrimento, mas, que possibilita ao indivíduo entrar em contato com o que há de mais verdadeiro em sua história. É um ponto de mutação. É a chance que a vida oferece para a revisão de valores, a busca de um significado real para a existência. Tomando como exemplo a águia ou a borboleta, podemos dizer que a depressão é o momento da metamorfose com vistas à experiência de uma vida melhor, mas digna, mais humana, mais feliz.

Há que se ter coragem para enfrentar o desafio que a depressão impõe. O grande desafio é a possibilidade de evolução ou processo de individuação, no dizer de Carl Gustav Jung, eminente psicólogo suíço. É o conflito entre o bem e o mal que afeta não só a pessoa deprimida, mas, a todos aqueles que com ela convivem.

Segundo Jung, o confronto com a metade obscura da personalidade, com a “sombra”, produz um grande sofrimento, porém, traz à tona o que há de melhor e pior na existência do ser humano. Por mais estranho que isso possa parecer, nós que trabalhamos com a depressão, podemos afirmar que é um momento sagrado, um momento de reavaliação de valores, de quebra de paradigmas, de encontro do sujeito consigo mesmo e com a sua história.

Como doença orgânica, psíquica e social, a depressão precisa ser tratada por profissionais médicos e psicólogos que compreendam a importância do grito de socorro que a pessoa deprimida lança ao mundo que a rodeia.

A depressão no idoso normalmente pode ser desencadeada por três fatores fundamentais: doença orgânica, solidão e perda de autonomia.

A doença orgânica quando acompanhada por um sentimento de solidão acarreta grandes distúrbios emocionais na pessoa idosa, o que pode culminar com a perda de autonomia, quando os familiares consideram que este ser já está “muito velho” para coordenar sua própria vida.

A nossa proposta se faz no sentido de que toda a decisão tomada pela família seja compartilhada pelo idoso ou idosa a fim de que sua integridade emocional seja preservada e que sua vida se desenvolva não só com quantidade de anos, mas, principalmente com qualidade.

*Gizelda Maria Capilé de M. Silva - Psicóloga Clínica – Formada pela Faculdade de Psicologia (UFRJ); Especialista em Psicanálise – (UFMT); Experiência profissional de 27 anos em Depressão e Psicogeriatria; Pós - Graduanda em Psicologia Analítica e Religião – Curitiba/PR; Realiza Trabalhos em consultório com adultos e idosos; Coordena grupo de Melhor Idade do Projeto “Aprendendo a Viver” no Espaço Psicopedagógico Humanizar; Diretora do Centro de Estudos de Psicologia Junguiana (Cuiabá/MT)

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