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Morte de Deus e Salvação da Alma: Jung Leitor de Nietzsche


Sonia Regina Lyra*


O senso comum ainda entende “salvação da alma”, como entendia a mais de cem anos atrás, como o livrar-se das penas e castigos eternos que esta alma viria sofrer no além, no mundo após a morte, na “eternidade”, o que coincidiria com os méritos morais adquiridos, segundo o modo de vida de cada indivíduo, povoando o imaginário popular e, de certa forma, de todos nós. Na psicologia analítica de Jung, o sentido de “salvação da alma”, pode ser encontrado nas passagens em que fala de redenção e de seu significado, como sendo a libertação da flutuação dos afetos e conseqüentemente, da tensão gerada pelos opostos, pois, “como o sofrimento é um afeto, a libertação dos afetos significa a salvação” sendo seu sinônimo a libertação da “tensão dos opostos”, como “caminho da salvação que leva gradualmente ao estado de brama”.(vol. IV, 348). O conceito de brama é tirado da filosofia Oriental, onde “Brama é designado como sat e asat, ser e não-ser, satyam e asatyam, realidade e não-realidade”. (vol. IV, 338). A este estado, designado brama na filosofia Oriental, a psicologia analítica de Jung, designa, Si-mesmo (Selbst). O Si-mesmo, aparece como representação dos opostos, que colidem não apenas na sociedade, mas no indivíduo, sendo que o indivíduo procura uma espécie de “ótimo vital”. Esta qualidade de união dos opostos aparece projetada como “Deus mediador, Messias, intermediário, etc”. (vol. IV, 323). O Oriente contrapondo-se ao Ocidente, coloca sua doutrina psicológica da salvação no campo da intenção humana, retirando a projeção em Deus como salvador, porque, enquanto mantida, “salta aos olhos a infantilidade dessa concepção”. (vol. IV, 323).

A psicologia analítica não é propriamente um sistema sobre o qual possamos nos informar objetivamente, por assim dizer, de fora. É um processo de análise interior, que deve ser experimentado como uma transformação penosa e demorada, chamada Individuação. Segundo Nietzsche a interiorização dos antigos impulsos, inibidos e contidos, geraram a má-consciência, cujos frutos, através da luta do homem consigo mesmo, apontam para um além do homem.

Na psicologia de Jung, a categoria fundamental é o Selbst. Selbst significa o mesmo, daí a tradução em português estar como Si-mesmo. Expressa a totalidade e a unidade global da psique que, como conceito empírico implica necessariamente, ser em parte potencialmente empírico e portanto, na mesma proporção um postulado. Engloba o experimentável e o não experimentável, ou, o ainda não experimentado. Na medida em que, como totalidade, compõe-se de conteúdos conscientes e inconscientes, for um postulado, seu conceito pode ser entendido como transcendente, isto é, como uma entidade que só pode ser descrita em parte, e que, de outra parte, permanece irreconhecível e não dimensionável. O Selbst aparece empiricamente em sonhos, mitos e contos de fadas, etc., representado por “figuras superiores”, sejam, reis, heróis, profetas, salvadores, demônios etc., formando um complexio oppositorum, ou seja, um jogo de luz e sombra cujos símbolos podem ser reconhecidos por sua numinosidade, constituindo assim, uma representação arquetípica. As representações do Selbst, de natureza inconsciente são projetadas, isto é, vistas como pertencentes à situações ou ‘coisas’, ‘pessoas’, pertencentes ao ‘mundo exterior’, o que leva à percepção da divisão sujeito/objeto. Assim, quando o homem moderno, não mais pode projetar a imagem divina, representação do Selbst, sofre como conseqüência uma experiência de abandono e acha-se ameaçado pela inflação de um lado, e de outro, esta é a única possibilidade para a integração do próprio Selbst inconsciente à consciência. Quando a idéia de Deus, portanto, não se acha mais projetada como realidade autônoma, “o inconsciente cria a idéia de um homem deificado ou divino, encarcerado, escondido, protegido, aprisionado e que precisa ser libertado”.

Admoestações célebres, confirmam este caminho de individuação ou de “salvação” como sendo “tarefa essencialmente ética não se deixar influenciar pelos opostos (nirdvandva = livre, imune aos opostos), mas elevar-se acima deles, porque a libertação dos opostos conduz à salvação”. (vol. IV, 325). Esta idéia é sustentada por Roberto Machado, ao falar do Zaratustra de Nietzsche, quando diz que o “Super-homem é todo aquele que supera as oposições terreno-extraterreno, sensível-espiritual, corpo-alma; é todo aquele que supera a ilusão metafísica do mundo do além e se volta para a terra, dá valor à terra”. (ZTN, p. 46) Nietzsche insurge-se aqui, em Além do Bem e do Mal, e fala, não de opostos, mas de seu refinamento, “pois embora a linguagem, nisso e em outras coisas, não possa ir além de sua rudeza e continue a falar em oposições, onde há somente degraus e uma sutil gama de gradações...”. (ABM, 24)

Na terminologia junguiana à totalidade do mundo psíquico denomina-se: Psiquê (Psychè). A Psiquê “divide-se” em duas ‘partes’: o Consciente ou a Consciência (Das Bewusste, das Bewusstsein) e o Inconsciente (Das Umbewusste). O conceito de Psiquê, estende-se para além de qualquer limite válido, tendo uma base somática e uma base psíquica. Sabe-se que existem
estímulos endossomáticos que jamais tonar-se-ão conscientes e, uma vez que, o processo vital é um conceito amplo demais, Jung propôs que “o conceito de psíquico fosse aplicado àquela esfera em que exista uma vontade comprovadamente capaz de alterar o processo reflexivo ou instintivo”. (CW IX/2, I, 2)

Aquela ‘parte’ da Psiquê, denominada consciência, tem como seu centro o Eu (Ich). O eu é um fator que é “impossível descrever com exatidão” e que se apoia sobre o campo global da consciência o que não quer dizer que seja constituído por ele. É apenas o ponto central da consciência, fundado e delimitado por fatores somáticos ligados ao seu caráter psíquico. Seu desenvolvimento constitui uma aquisição empírica da existência individual, resultando do entrechoque entre o mundo exterior e o mundo interior, vindo a constituir um sujeito real. Este tema da consciência e do tomar-consciência-de-si, está amplamente desenvolvido pelo prof. Osvaldo Giacóia Jr. em Nietzsche como Psicólogo.

Para Jung é evidente que o fenômeno global da Psiquê, não coincide com o eu, nem com a ‘parte’ consciente mas, inclui toda a dimensão inconsciente, que, de qualquer forma, não pode ser captada em sua totalidade, e que por isso mesmo, foi denominada Selbst (Si-mesmo). Esta expressão foi adotada no sentido da filosofia oriental, mais propriamente desenvolvida em Symbole und Erfahrung des Selbstes in der Indo-Arische Mystik, 1934; a filosofia dos Upanishads, a qual corresponde a uma psicologia que há muito já advertiu a relatividade dos deuses. O reino dos deuses é o reino do inconsciente coletivo, acessá-lo é simultâneamete, acessar a dimensão religiosa da psique. Assim, para Jung, Nietzsche, em seu Zaratustra, “traz à luz, principalmente, os conteúdos do inconsciente coletivo de nossa época e por isso encontramos nele as características decisivas: a revolta iconoclasta contra a atmosfera moral tradicional e a aceitação do homem “mais feio” que leva à tragédia comovente e inconsciente, apresentada em Zaratustra”. Os deuses, são representações mitológicas da libido, e “Deus renovado, significa pois, uma atitude renovada, ou seja, a possibilidade renovada de vida intensa, uma nova consecução de vida porque psicologicamente Deus significa sempre o valor maior, a maior quantidade de libido, a maior intensidade de vida, o ótimo da vitalidade psicológica”. O significado fundamental aqui, é que a “morte de Deus” e seu “renascimento”, sua renovação, é a tentativa de solução em forma de uma renovação da atitude geral. Daí que, “a idéia de um princípio criador universal é uma projeção da percepção do ser que vive no homem”e que coincide com aquela idéia de uma força dinâmica ou criadora que foi denominada libido. Por exemplo, ainda na filosofia oriental, a palavra “brama” que coincide com o “Selbst”, significa: oração, fórmula mágica, discurso sagrado, saber sagrado (veda), conduta santa, o absoluto, casta sagrada (brâmanes), deriva de barth, farcire, a “inflação”, isto é, “oração”, concebida como “a vontade do homem que procura atingir o sagrado, o divino”.

Inflação e suas derivações apontam para uma concentração específica da libido que, por meio de inervações transbordantes, provoca um estado geral de tensão que está vinculado às expressões comumente usadas como: imagens de transbordamento, não agüentar mais, explodir, etc. Neste sentido, é melhor considerar o Selbst, como energia, para evitar mal entendidos vitalistas, assim como é preciso rejeitar cabalmente a hipóstase do conceito de energia, adotada pelos energiticistas modernos. O conceito de energia é inseparável da idéia de opostos, sendo que o mesmo acontece com o conceito de libido. Os símbolos da libido, sejam eles de natureza mitológica ou filosófico-especulativa, apresentam-se diretamente como opostos ou podem ser considerados como tais”.

O termo psique, contém pois, uma “estrutura psíquica” que Richard Semon chamou de mneme e Jung de inconsciente coletivo. A “imagem primordial” que também foi chamada “arquétipo”, é sempre coletiva, isto é, comum a todos os povos e tempos. Quando fala de imagem, Jung não está se referindo a um retrato psíquico do objeto exterior, mas a uma representação imediata, oriunda da linguagem poética, analógica, ou seja, da imagem da fantasia que se relaciona indiretamente com a percepção do objeto externo. Apresenta-se como expressão concentrada da situação psíquica como um todo e não sobretudo ou simplesmente, dos conteúdos do inconsciente, e constela-se como resultado de uma atividade espontânea do inconsciente, por um lado e, por outro, pela situação momentânea da consciência. Portanto, chama-se imagem primordial ou arquétipo, a expressão da psique, que possui caráter arcaico, isto é, quando a imagem apresenta uma concordância explícita com motivos mitológicos conhecidos. Finalmente, não é possível distinguir a psique de suas próprias manifestações. Embora constitua o objeto da psicologia, ela é também seu sujeito e, em última análise, está-se expressando simbolicamente aquilo que se pode imaginar como o mais obscuro. Também nas palavras de Nietzsche poder-se-ia entender como a antinomia exotérico / esotérico, sendo o primeiro, aquilo que se move na dimensão do intelecto, da ciência e das opiniões comuns, enquanto que o segundo vem inscrito em qualquer coisa de inaudito, profundo, de segredo. Da mesma forma Giovani Rocci comenta as palavras de Nietzsche que dizem que: o eu e o Tu, não são mais que imagens. “Essere, temporalità, Volontà di potenza, tutto ciò è rappresentazione” – “Noi dobbiamo essere uno specchio dell’essere: noi siamo Dio in piccolo”. (MA, 219) e prossegue: “tudo que há em nós de alto ou de baixo, deve ser entendido como necessariamente pertencente ao ser do mundo. E conclui: “Não são as nossas perspectivas através das quais vemos as coisas; mas são as perspectivas de um ser da nossa espécie, porém maior: nós vemos em imagens o que ele vê”. (VII –1, I, p. 149; VII-2, p. 186; VIII-1, p. 25). Para Jung esse “più grande”, esse “maior” é o Si-mesmo, que também pode ser visto como Atman-Braman e que, empiricamente, só pode ser experienciado, como um estado ao qual “se chega” através da “morte de Deus”; estado este decorrente do maior de todos os perigos, e simultâneamente, o único caminho para a salvação da alma, do mistério da união dos opostos, através do processo de individuação.

Diante dessa colocação, de que finalmente, não se pode distinguir a psique de suas próprias manifestações, pode-se entender que o estado de “inspiração” do qual nasce Zaratustra, “em mais ou menos dez dias cada parte”, é claramente uma manifestação da psique. A psique ou alma à qual Zaratustra se refere, está “carregada e opulenta”- “comprimida e oprimida” (Z, III, 228/9), pela própria felicidade; alma à qual Zaratustra tudo deu até que suas mãos por ela “se esvaziaram”; alma que recebeu novos nomes, um deles: “destino”; alma/destino que Zaratustra persuadiu a “erguer-se nua ante os olhos do sol”. (Z, III, 228).

Parece que a persuasão utilizada por Zaratustra, para com a alma, finalmente, tem como pré-condição a “morte de Deus”.
A noção de “Deus” foi inventada segundo Nietzsche, como antítese à vida; inventada como uma noção de “além” para desvalorizar o único mundo que existe – “para não deixar à nossa realidade terrena nenhum fim, nenhuma razão, nenhuma tarefa”. (EH, p. 116) Da mesma forma a noção de “alma”, de “salvação da alma” “entre convulsões de penitência e histeria de redenção!”, bem como às inversões de bom e mau, “nisso tudo acreditou-se como a moral”(EH, p. 117).

Zaratustra ensina os homens a “não mais enfiar a cabeça na areia das coisas celestes, mas, sim, trazê-la erguida e livre, uma cabeça terrena, que cria o sentido da terra!”(Z, II, 49). É este pensamento afirmativo, que vem derrubar por terra toda dualidade produzida pela leitura cristã que criou a oposição entre este mundo e o mundo do além. Neste sentido “morte de Deus” significa a supressão da crença em um outro mundo, um “mundo do além”, que representa uma contraposição às dores e sofrimentos “deste” mundo. Outrora, Zaratustra também projetou suas ilusões para fora do mundo, para um além mundo, que o faz questionar: “mas para além do homem, realmente?”(Z, I, 48), pois diz, este Deus que eu criava era também obra humana, loucura humana, como todos os deuses. Era um Deus que envelheceu e que agora está morto.
Mas, Zaratustra sabe que há no homem um anseio que aponta para além do homem, para algo muito semelhante ao Selbst de Jung, pois diz Zaratustra: “O Si-mesmo ouve sempre, e procura, confronta, constringe, conquista, destrói. Domina, e é também o dominador do eu”(Z, It. I, 37). Este anseio aponta também para a libertação do homem; libertação do despeito, do ódio vingativo, do amargor, que conduza o homem para além do homem, assim como ele tem sido até agora, cujo perigo, é permanecer num indiferença resignada, num pessimismo ou cinismo diante de si mesmo, porque “quem realmente ama, ama acima de prêmio e castigo”(Z, IV, 263), ou seja, para além de todas as oposições. Num movimento de ocasos e alvoradas, de avançar, fixar, liquidificar, reorganizar-se sempre de novo, na aquisição de novas visões e perspectivas, este segredo a própria vida confiou a Zaratustra: “Vê”, disse, “eu sou aquilo que deve sempre superar a si mesmo”(Z, II, 127). Para Zaratustra é preciso surgir uma vontade criadora que finalmente se redimisse a si-mesma até o homem tornar-se “seu próprio redentor e trazedor de alegria, desaprendeu o espírito de vingança”. (Z, II, 152). A ambição máxima que pode ser alcançada está à mão, ensina Zaratustra: “... não é um mandamento para hoje ou amanhã, o de aprender a amar-se a si mesmo. Ao contrário, de todas as artes, é a mais sutil, a mais astuciosa, a última e mais paciente”. (Z,III, 199).
 

*Sonia Regina Lyra, Psicóloga, CRP 08/0745, Analista Junguiana (Inst. Junguiano SP, Assoc. Junguiana do Brasil - AJB e Intern. Association for Analytical Psychology - IAAP). Mestre em Filosofia (PUCPR) e Doutora em Ciências da Religião (PUCSP). É presidente do ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião.sonia@ichthysinstituto.com.br
 

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