Links Interessantes

Pedofilia - O Fascínio do Horror


Peças publicitárias de denúncia à pedofilia

Sonia Regina Lyra*


"Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero” (ROM 7:15-25, 7:19)


O apóstolo Paulo, como citado na epígrafe, sabia da tremenda contradição em que se debate a alma humana em busca da experiência do amor. O amor é a norma!(1) É o princípio, o meio e o fim de toda ânsia humana. Mas o que é o amor e como se manifesta? Desde visões beatificas da beleza até os horrores das perversões criminosas. Nele mesmo [no apóstolo] duas dimensões presentes e contraditórias, como em cada um de nós. Do cômico ao trágico. Da inocência ao crime. Dos museus de arte aos museus de tortura que se multiplicam pela Europa. De perversos polimorfos a indivíduos individuados. O que está em jogo dizem Freud e Jung é a libido. Libido é para Freud energia sexual e para Jung, energia psíquica. O modo como essa libido é percebida são as emoções e as imagens que se ocultam nas emoções.

O caráter primário da libido é ser autônoma, isto é, subjugar o indivíduo ao seu fascínio, ao seu poder, e, submetê-lo à ação, através do instinto. Como o instinto é uma ação concreta da libido manifesta, o arquétipo é sua energia oculta, ainda não visível, apreendida tão somente pela imagem, pela forma com que se revela, revestindo a energia psíquica. A libido é também uma ânsia dirigida para um determinado fim, sendo esta, uma força natural boa e má ao mesmo tempo, portanto moralmente indiferente. Deste modo, toda unidade de significado está nas alegorias da libido, cuja natureza se revela através das realizações do indivíduo. É a força criadora que se oculta na imagem sendo que, a transformação operada pelo processo de individuação, não decorre pela eliminação dos sintomas, mas sim, pelo fato de ser encontrado seu sentido oculto.

Deste modo, antes que um pedófilo ou qualquer outro tipo de criminoso, portador de patologia sexual ou não, seja detectada, ela [a libido] já está presente na alma do indivíduo, de TODOS os indivíduos, de modo potencial, virtual. O mundo externo pode ativar ou não em cada um esses conteúdos. Em alguns permanece como uma fantasia, em outros se transforma em arte, em outros em crimes, etc.

Há um jogo de forças dentro de cada um de nós que dominamos ou somos dominados por elas. É daí que proliferam os conceitos patológicos na busca intensa da razão em dar nomes às diferentes intensidades e modos de ser dessas forças.

Carl Gustav Jung (1875-1961) apropriando-se da teoria de Platão denominou essas forças de arquétipos e propôs uma saída dessa luta terrível dos opostos. Para isso se apropriou também do conceito de símbolo tratado pelo teólogo, filósofo e místico Nicolau de Cusa (1401-1464) indicando a possibilidade da união dos opostos. A sua psicologia então, torna-se uma psicologia simbólica, no sentido de ser justamente aquela que propõe o resgate do sentido e da despotencialização do instinto pelo reconhecimento do arquétipo. Em outras palavras, e nisso Sade(2) é um mestre: Justine é uma jovem que, sendo raptada, violentada, torturada e degradada, representa a inocência da alma humana constrita a conhecer a força escura da sombra a ser percebida e assimilada quando possível. Criança, religião, família, inocência, pureza tudo isso à mercê do libertino e da corrupção.

Há um lado escuro do Eros (enquanto pornéia, pois o Eros tem outras dimensões) que destrói, corrompe e mata. Se encontrarmos o símbolo, diz Jung, podemos escolher não atuar sobre o mundo externo, porque aquilo que se quer destruir, corromper e matar é o modo de ser das próprias forças, transformando-as. Dizer isso é dizer que o pedófilo, se buscar a tomada de consciência de sua ação pode descobrir que é dentro dele que está a possibilidade de transformação do desejo e da compulsão para esta ação que o leva até a criança. Não quero fazer o mal diz são Paulo. Mas faço!

A pergunta, no entanto, nos persegue: porque a inocência da alma é violentada e torturada através do abuso da criança? Qual a natureza do seu ataque ao cristianismo que está aí simbolizado pelos religiosos pedófilos nas manchetes? Que tipo de fascinação é esta pelos órgãos genitais e pelo sexo sem amor?

Uma resposta possível pode ser a moral. A moral de acordo com Nietzsche(3) é constituída a partir da repressão e contenção dos instintos humanos o que não significa que possa ser experienciada por todos os homens uma vez que uma moral profunda traz consigo uma tremenda exigência que dá à vida verticalidade, sacralidade, significado e valor. Que tipo de força interna de caráter pode um homem que não consegue dizer não a um prazer ou a uma fantasia de prazer? Poderão os escravos dizer não para as cebolas do Egito em prol de uma terra prometida que se encontra para além dos desertos?

Nem todos conseguirão se libertar. É preciso que haja um ego capaz de lidar com as forças, assim como, é preciso saber de que modo lidar com essas forças. É preciso acima de tudo, a consciência de que a distância entre a fantasia e a ação é muito pequena e frágil. Mais que isso, é preciso que se saiba que todo vício é compulsivo. É autônomo e age por si mesmo. Fascina, para bem e/ou para o mal. Mas, acima de tudo, pode ser transformado a partir de uma experiência psíquico/religiosa.


*Sonia Regina Lyra - Psicóloga pela PUCPR; Analista Junguiana polo Instituto Junguiano de São Paulo, Associação Junguiana do Brasil e International Association for Analytical Psychology de Zürich; Mestre em filosofia pela PUCPR, Doutoranda em Ciências da Religião; Presidente do ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião.

O texto a seguir foi publicado pelo 
jornal Universidade, Ed 127, abril de 2010.


___________________________________________________________
(1) - BOSS, Medard. Perversioni sessuali. Significati e contenuti. Vivarium, Milano, 1998.
(2) - MOORE, Thomas. Il lato oscuro dell´eros. Lyra Libri, 1998.
(3) - NIETZSCHE, F. Genealogia da moral: uma Polêmica. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Mais Artigos:

Entrevista com Sonia Lyra para a Edição Especial da Teologia Acadêmica sobre Psicologia da Religião

Sonia Lyra leva imaginação ativa à Alemanha

Salmos chilenos

Os Sonhos e a Morte

Alienação e Experiência Religiosa

Nietzsche, Jung e a Morte de Deus

Espiritualidade e Saúde em Hildegard de Bingen

Niilismo e Arte

ORIXÁS: As Forças da Alma

O Pecado Original

Psicologia e Meditação

Revela-se o germe: Vida

Psicologia e Vida Mística

Angústia Psicológica ou Angústia Teológica?

O Sol sobre o Pântano

Flagelo da classe média

A Ganância da Honra

São Paulo à La Carte

"O homem não aceita mais ficar triste"

Abel

Sem Esperança

Os Sonhos

Meninas fáceis

Insônia

A importância de Jesus na educação, independentemente de religião

Luiz Felipe Pondé

Carta de Bill W. a Carl Jung

Não precisa casar. Sozinho é melhor

Agostinho e a Configuração da Interioridade

Depressão na terceira idade

A rosa e o tempo

O filósofo, a torre e o Papa

A existência é culpada ou inocente? Deleuze e a filosofia de Nietzsche

O ser humano é mentiroso, corrupto, frágil e confuso

Dez Teses contra a Torre de Babel

Ateísmo e Inocência: uma análise a partir de Jung e Nietzsche

Sonho e premonição

Zaratustra e o Niilismo em: das Três Metamorfoses

Morte de Deus e Salvação da Alma: Jung Leitor de Nietzsche

Lições de Sade, ensaios sobre a imaginação libertina

Ichthys - Instituto de Psicologia e Religião
Fone: (41) 3357-9895 / 9990-0575 - secretaria@ichthysinstituto.com.br - ichthys@ichthysinstituto.com.br