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Angústia Psicológica ou Angústia Teológica?


Sonia Lyra

Sonia Regina Lyra*


O tema da angústia vem sendo abordado continuamente pela psicologia e também, desde Kierkeggard, pela teologia. Na obra de von Balthasar (2000), O cristão e a angústia, da qual trato em trabalho de pós-doutoramento na PUCRJ, o foco recai sobre a dimensão teológica com vistas a vislumbrar a condição da possibilidade da experi- ência mística, que é, por assim dizer, o último degrau do conhecimento humano. Balthasar (1905-1967) é um dos maiores teólogos católico-romanos do século XX. Estudioso de Santo Agostinho, Kierkeggard, Husserl, Barth, Przywara e Blondel aponta a angústia psicológica como símbolo de outra angústia mais profunda relacionando-a ao conceito bíblico de pecado. Angústia vem de angst e é também denominada ansiedade intensa, aflição, agonia, medo sem causa identificada, estreiteza, aperto.

Importante é entender que este é um fenômeno constitutivo do ser humano e sempre estará presente em qualquer tipo de estrutura psíquica, exceto para os convertidos, isto é, aqueles que experimentaram a metanoia. O principal efeito da angústia é a sensação de estar perdido, separado, desmembrado, isolado, encarcerado, agrilhoado. De modo geral não são situações do mundo externo os provocadores da angústia, mas sim a própria mente, sendo, portanto um fenômeno tanto objetivo quanto subjetivo. Existem na teologia, duas categorias para designar o fenômeno da angústia: a angústia dos bons e a angústia dos maus, ou seja, do homem voltado para Deus e a daquele que lhe dá as costas. Na medida em que a categoria do bem prevalece o homem fica isento do medo passando a viver tranquilo e seguro: “Quem me escuta viverá tranquilo e seguro, sem temer mal algum” (PV. 1:33) levando o homem a “habitar na terra da promessa e da graça” (DT. 12:10; I Reis, 2:25; EZ. 34:27).

Segundo von Balthasar (2000), o rigoroso mandamento da fé e a estrita proibição de ter medo são uma e a mesma coisa. Há, portanto, uma direção da angústia que aponta para a possibilidade do emancipar-se dela através de uma exigência absoluta do decidir-se por Deus; e, de outro lado, a extrema ameaça para aquele que permanecer não transformado. Fala-se em transformação porque a metanoia pode, e geralmente é, um lento e doloroso processo que implica em diversos degraus e aspectos, pois, a relação de aliança que irá livrá-lo definitivamente da angústia, está sempre sujeita a nova prova e a nova confirmação.

*Sonia Regina Lyra é  Psicóloga,  Analista Junguiana (Inst. Junguiano SP, Assoc. Junguiana do Brasil - AJB e Intern. Association for Analytical Psychology - IAAP). Mestre em Filosofia (PUCPR) e Doutora em Ciências da Religião (PUCSP). É presidente do ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião.

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