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Psicologia e Vida Mística


Castelo Místico

*Por Sonia Regina Lyra


Nesta obra magnífica, Psicologia e Vida Mística (1996), Léon Bonaventure (Analista Junguiano, que trouxe as obras de JUNG para o Brasil), ao desenvolver um estudo sobre o Arquétipo do Centro da Alma, toma como base a obra de Santa Tereza D´Ávila (especialmente Moradas). Esse autor apresenta o Si-mesmo (Centro) como a única possibilidade de se estabelecer um trabalho real com o mundo interior.

Embora a experiência do Centro seja alcançada ao final de um longo processo de ascetismo e procura interior, percebe-se hoje que, aquilo que C. G. Jung denominou Si-mesmo, é uma realidade imediata e próxima, sendo ao mesmo tempo o lugar de onde tudo nasce e para onde tudo converge. O enfoque é sobre o homem psíquico e, especialmente, em suas angústias (cf. edição anterior deste Jornal).

Como o objeto da psicologia é o estudo da psique e seus conteúdos, o aspecto enfatizado empiricamente é a imagemEntende-se por imagem uma espécie de representação imediata que se manifesta à consciência, dotada de vida, exercendo certa orientação e certo poder sobre a personalidade.

Deste modo, todas as imagens usadas pela mística de Santa Tereza sãosímbolos. Assim sendo, a realidade ontológica da experiência mística, do mesmo modo que “Deus em si”, não recebem nenhuma ênfase no estudo psicológico, enfatizando-se sim, os aspectos psicológicos do fenômeno religioso. Por exemplo, um dos símbolos centrais de Moradas é o castelo e o fosso ao seu redor. Nas primeiras moradas, a alma é como uma pessoa muda e surda que progressivamente poderá despertar e virar-se para luz do sol, imagem esta que traz certa analogia com o mito da Caverna de Platão.

Santa Tereza diz não ignorar que a alma e o castelo são uma e a mesma coisa sendo que, para descrever essa realidade inexprimível a melhor fórmula possível é osímbolo cuja riqueza é inesgotável. Sendo simultaneamente imagem e vida, o símbolo traz consigo uma relação íntima entre a experiência mística e a experiência simbólica e é ainda, a expressão imediata do centro da alma.

A etimologia da palavra símbolo, em alemão Sinn-Bild, reúne ao mesmo tempo as duas ideias de imagem e sentido, exprimindo assim os dois aspectos do símbolo: a imagem universal e seu sentido particular. Ao se fazer uma análise fenomenológica dos símbolos, percebe-se que eles correspondem àquilo de que a humanidade se serviu para descrever uma realidade absoluta e sagrada. Para Santa Tereza, os símbolos referem-se a uma realidade do mundo interior e tomam, portanto, uma significação psicológica.

No entanto, a todo símbolo individual corresponde um símbolo universal. Mais tarde, Santa Tereza corrigirá seu pensamento, dizendo saber perfeitamente que, embora tenha dito que o castelo é a alma, a alma ultrapassa todas as categorias do entendimento e todas as significações que podem envolver os símbolos ainda que, a única possibilidade que se tem para descrever tais realidades do mundo interior seja a linguagem simbólica.

Sintetizando, a tradução da experiência mística em esquemas emprestados à psicologia e à linguagem simbólica é comum na chamada mística prática.



*Sonia Regina Lyra, Psicóloga, CRP 08/0745, Analista Junguiana (Inst. Junguiano SP, Assoc. Junguiana do Brasil - AJB e Intern. Association for Analytical Psychology - IAAP). Mestre em Filosofia (PUCPR) e Doutora em Ciências da Religião (PUCSP). É presidente do ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião. sonia@ichthysinstituto.com.br


Publicado no jornal Universidade Ed 147 março 2012

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