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Revela-se o germe: Vida


Sonia Regina Lyra*


Um sinal é dado.  Um homem e uma mulher se encontram, e uma nova estória está escrita. Um germe/bebê como um grão de mostarda cresce em seu jardim. O germe é carregado, cuidado e cunhado pela própria vida até o momento do “vir à luz”. É da natureza do germe desenvolver-se, formar-se, num contínuo vir a ser. O anúncio está feito. A virgem (metáfora da alma que atingiu certo estágio) está grávida. O jardim está preparado, ou deveria estar.

Com um primeiro olhar pode-se pensar que estas palavras estão destinadas apenas à Revelação do Mistério Cristão, mas se forem transpostas para a nossa realidade, cada criança que, como um germe, inicia sua trajetória para o mundo, é um símbolo, ou seja, a repetição do mesmo mistério, do mesmo vir a ser: VIDA. Na profecia de Isaías está escrito: “Pois sabei que o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a virgem concebeu e dará à luz um filho, e pôr-lhe-á o nome de Emanuel” (7, 14 e 9.5).

Emanuel quer dizer: Deus conosco. E Cristo, na mensagem Evangélica disse: Eu sou a VIDA! Cada criança/germe traz consigo um paradoxo, uma espécie de outro Eu, que é denominado imagem arquetípica pela tradição da Psicologia Analítica. À medida que esse Eu se expande dentro de nós, nós nos transformamos. Transformar é como desembaçar um espelho cujo sentido surge com a busca constante do conhecimento e da purificação, para assim, fazermos a imagem de Deus brilhar na alma.

A poetisa russa Natália Gorbanievskaia escreveu: “Nós nos transformamos dia a dia e, à medida que nos afastamos de nós mesmos, esfregamos o espelho timidamente; tateamos a sua moldura com o pano macio e procuramos desesperadamente o perfil que se desvanece...” (Horn-Jung, 1996, p. 58).

Nesse processo de transformação, a VIDA, que é sempre vir a ser de si-mesmo, jorra como uma fonte de força interior e o objetivo é que a totalidade do homem interior seja cada vez mais revelada. Vida nesse sentido, não a vida biológica, nem a psicológica e nem mesmo a biográfica, mas sim, a existencial, isto é, a VIDA do homem é a tarefa de um empenho, a aventura e a ventura da busca do sentido do ser.

Isso é vida existencial que, assim entendida, se chama via, caminho, Tao, em chinês, e Do, em Japonês. Na tradição do Ocidente ela se chama espírito, daí VIDA espiritual e espiritualidade. Desde o germe, desde o princípio, a Vida aponta para essa possibilidade que vai aparecer no que chamamos de humor, e a alegria é a sua repercussão.O bom humor, ressonância deste processo, não é contrário ao mau humor, nem da tristeza, nem da dor ou do sofrimento, mas é antes o ânimo, o frescor, a coragem de ser sem máscaras, sem subterfúgios, num vencer-se a si mesmo que é um transcender.

VIDA é, pois, um estado que se transforma, num concrescimento que vai desde os estados mais vegetativos aos mais altos que se possa experimentar, uma qualidade de autodeterminação na qual há força, vigor, sabedoria e poder; uma qualidade superior, nobre, profunda, sim, divina.
 

*Sonia Regina Lyra, Psicóloga, CRP 08/0745, Analista Junguiana (Inst. Junguiano SP, Assoc. Junguiana do Brasil - AJB e Intern. Association for Analytical Psychology - IAAP); mestre em Filosofia (PUCPR) e doutora em Ciências da Religião (PUCSP); presidente do ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião. sonia@ichthysinstituto.com.br

Publicado no jornal Universidade Ed. 147 março 2012

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