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O Pecado Original


Sonia Regina Lyra*

 Em Assim falou Zaratustra, Nietzsche diz que nosso único pecado é que nos alegramos pouco demais. “Desde que os homens existem, sempre o homem se alegrou pouco demais: é somente este, meus irmãos, o nosso pecado original” (1983, p. 102).

 Para uma autora de peso, como Hildegard de Bingen, (de quem falamos no artigo Espiritualidade e Saúde) a essência da ascese, isto é, da disciplina é poder alegrar-se sempre. Disciplina vem do latim discapere e significa tomar nas próprias mãos, moldar pessoalmente. Por exemplo, se alguém engole um pedaço de bolo com avidez, sem saboreá-lo, não poderá alegrar-se; ficará apenas chateado por ter ingerido calorias ou porque comeu demais. Quem saboreia, ficará com o gosto daquela alegria, ainda por muito tempo em sua boca.

 Hazrat Inayat, um mestre Sufi, diz: Deve-se renunciar à cobiça, mas não à alegria. A cobiça chega acompanhada de dor, dissabor e ira. É uma espécie de prazer falso, uma paixão da alma. Rilke por sua vez, exorta: Nunca esqueça, a vida é uma maravilha! Ele não está se referindo a alguma qualidade particular da vida, como o sucesso, o amor, à saúde ou à juventude. Está falando da vida com seus altos e baixos, com seus lados de luz e sombra, com todos os matizes da alegria e da dor: é uma maravilha! O Salmo diz: Põe tua alegria em Yahweh e ele realizará os desejos do teu coração (Salmo 37,4). A alegria é um estado da alma, que pode vir ou não acompanhada da diversão no sentido como a entendemos hoje. Quem corre de uma diversão para a outra, torna-se incapaz para a alegria diz a escritora austríaca Marie von Ebner-Eschenbach. Diversão pode causar doença, vício, porque a pessoa se torna insaciável. A alegria não. A invenção da indústria da diversão tenta levar as pessoas para experiências extraordinárias, mas a verdadeira alegria, não pode ser produzida, nem induzida artificialmente. Ela acontece quando se vive inteiramente o momento presente. É o que Abraham Maslow chama de experiência de cume. Um nascer do sol, ou a vista maravilhosa de uma paisagem qualquer indicam que precisamos apenas estar de “olhos abertos”, despertos, para que a experiência da alegria aconteça.

 São João Crisóstomo disse que Deus deixou para os seres humanos algumas coisas do paraíso: as estrelas do céu, as flores do campo e os olhos das crianças. E Santo Tomás de Aquino completa dizendo que Crisóstomo esqueceu duas coisas: o queijo e o vinho. Crisóstomo teve que pagar com o exílio suas pregações e enaltecimentos à vida, pois anunciava Jesus Cristo com tal alegria que as pessoas se sentiam tocadas. Alegria é um pouco diferente do prazer. O prazer do queijo e do vinho se torna alegria, se saboreados devagar, intensamente. Numa noite de recepção perguntaram ao teólogo Johann Baptist Metz porque as pessoas da Baviera eram consideradas tão especiais: ele respondeu que elas têm uma alegria natural na religião, e uma alegria mística na cerveja! Claro, isso não deve valer somente para a Baviera! No entanto algo ocorre: não se pode pretender prender a alegria. Ela só pode ser desfrutada quando renunciamos à vontade de detê-la para nós ou de segurá-la. Em última análise, é uma experiência espiritual: desprender-se de si mesmo e entregar-se à Vida. Somente a pessoa que pode ir transformando seu ego (que sempre quer ter e agarrar) pode sentir autêntico prazer. Autorrenúncia aqui, é o pressuposto para o prazer autêntico, a verdadeira alegria. Vida tem a ver com fluidez, solução. A vida não é somente um problema a ser resolvido. Quando a vida flui, isso já é solução. É quando a Vida se torna um mistério inefável. 

 Um provérbio chinês diz: Se guardo em meu coração um galhinho verde, um pássaro gorjeador virá e pousará nele e encherá nosso coração com alegria, ficamos maravilhados. Para Beethoven, em sua Nona Sinfonia, Schiller criou a “Ode a Alegria”. Ela se tornou uma música para a humanidade que ressoa em momentos de grande alegria e gratidão. Melodia e texto são uma unidade e fazem vibrar os corações. Schiller chama a alegria de uma bela filha do Elísio, uma belíssima centelha divina que as divindades colocaram no coração do homem, mas que, provém da terra dos bem-aventurados. É louvada como a mansidão que conecta as pessoas; é a alegria a grande motriz. A grande engrenagem que faz as flores brotarem inspira novas ideias e faz transbordar uma vida feliz: redimida do pecado original!


*Sonia Regina Lyra, Psicóloga, CRP 08/0745, Analista Junguiana (Inst. Junguiano SP, Assoc. Junguiana do Brasil - AJB e Intern. Association for Analytical Psychology - IAAP). Mestre em Filosofia (PUCPR) e Doutora em Ciências da Religião (PUCSP). É presidente do ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião.sonia@ichthysinstituto.com.br

Artigo publicado no Jornal Universidade - edição dezembro de 2012

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