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ORIXÁS: As Forças da Alma


Sonia Regina Lyra*

O desenvolvimento inicial do conceito de libido ocorreu em 1912 na Psicologia Analítica, querendo designar com isso, uma tendência instintiva, sem ser, porém, um instinto específico. Enquanto uma tendência ou um voltar-se para, a libido é entendida como movimento e, particularmente, um movimento cujos atributos são o conhecimento e o afeto. Enquanto sinônimo de energia psíquica, a libido pode ser pensada como capaz de assumir formas diversas, isto é, pode ser entendida como o motor de manifestação de cada ação humana individual e cultural. Sujeitas a transformações de uma forma à outra e de um modo de expressão a outro, a libido acontece na alma humana em forma de símbolo. É desse modo que podemos pensar os ORIXÁS no sentido de forças da alma.


No Brasil, os Orixás tiveram sua origem na Bahia e foram trazidos pelos escravos, supostamente os Iorubas (Séc. XVI), através de sua religiosidade, ficando esta conhecida por CANDOMBLÉ. Seus mitos e rituais sofreram diferentes influências, apresentando, por isso, diferentes características. Os primeiros candomblés se instalaram em terrenos fora das cidades, em lugares onde o som dos tambores não incomodasse os que dormiam; foram chamados terreiros. Pierre Verger, fotógrafo e etnólogo francês, no livro Os Orixás desenvolve a beleza dessa tradição e, com outras palavras, fala de sua atuação na, e através da, alma humana. Para designar essas forças invisíveis ou mágico-sagradas de toda divindade, de todo ser animado e de todas as coisas, a palavra nagô é axé. Os melanésios usavam para designar tais forças a palavra mana. Assim, cada Orixá, pode ser portador de uma força específica, ou de um axé específico. 


Para Xangô que preside o trovão, uma pedra de raio; para Oxum, orixá das águas doces e cristalinas, um seixo rolado; para Ogum, o orixá do ferro, um fetiche feito desse metal; para Obaluaiê, o orixá das doenças, uma pedra rugosa, etc. Axé portanto, é vida, é poder, é energia, nas suas mais variadas formas, sendo que desta forma, sem axé, não pode haver Candomblé. Os Orixás foram criados por uma divindade suprema conhecida por Orum, com a finalidade de serem os intermediários entre ele e os homens. No Cristianismo essa função pertence aos anjos. No Candomblé, os orixás são evocados por meio dos tambores que são sacralizados a partir de comidas rituais específicas.

O sacerdócio tem sua hierarquia e cerimônias específicas, para vincular com mais força o Orixá de cada um, de acordo com as funções a serem desempenhadas: são os Babalorixàs ou Yalorixá que são encarregados de realizar as cerimônias. A iniciação do babalaô não é a mesma que deve experimentar um filho ou filha de santo, pois nesta, busca-se o “eu” primordial perdido, que pertence ao Orixá. 
Diz Pierre Verger: Orixás são forças a conter forças, axé a conter axé, são anjos, são divindades, são formas de energia (libido); são cultuados e dão proteção; estão na natureza sob todas as suas formas, presidem os atos humanos e presidem o além (o mundo do inconsciente para Jung), ainda não se possa definir a indefinível. 
Representando a beleza dessas forças os artistas de diferentes épocas criam imagens em metal, madeira, fotografia. Assim, Oxum é o Orixá da beleza, charme e riqueza; Oxumaré, Orixá do arco-íris, seu símbolo é a cobra; Ossain, Orixá das ervas; Logunedê, Orixá da caça; Ewa, Orixá da água, guerreira e valente; Yansan ou Oiá, Orixá dos ventos e das tempestades; Yemanjá, Orixá das águas salgadas; Oxalufan, ou Oxalá Velho, Orixá da criação; Xangô, Orixá do raio, do fogo e do trovão; Exú, Orixá mensageiro dos deuses; Ogun, Orixá da guerra e irmão de Exú; Omulú ou Obaluaiê, Orixá das doenças e da cura; Oxossi e Obá, Orixás da caça; Oxaguian, Oxalá moço, guerreiro; entre outros.

Esse pequeno artigo não comporta a riqueza de detalhes e o modo de atuação dessas forças. Diferentes nações podem dar diferentes nomes aos orixás, de acordo também com suas diferentes funções. O fato é que são forças atuantes quer se saiba ou não de suas presenças na psique humana.

*Sonia Regina Lyra, Psicóloga, CRP 08/0745, Analista Junguiana (Inst. Junguiano SP, Assoc. Junguiana do Brasil - AJB e Intern. Association for Analytical Psychology - IAAP). Mestre em Filosofia (PUCPR) e Doutora em Ciências da Religião (PUCSP). É presidente do ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião.sonia@ichthysinstituto.com.br


Publicado no Jornal Universidade - edição novembro de 2012

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