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Niilismo e Arte


Sonia Regina Lyra*

 Em sua obra Signos e poderes em Nietzsche (2004), Leon Kossovitch aborda a arte com tal beleza que não se pode deixar de compartilhar. “Desejamos sem cessar reviver uma obra de arte! Deve-se dispor sua vida de maneira a experimentar o mesmo desejo de cada uma de suas partes! Eis o pensamento capital!” (GC-K 398). É nessa leitura que o eterno retorno é uma obra de arte, pois só a arte pode produzir efeitos mais intensos. Mas esses efeitos são chamados estados estéticos, afirmação esta inseparável da experiência artística. Nietzsche diz: “Quando encontramos coisas que mostram esse brilho e essa plenitude, a existência animal em nós responde-lhes com uma excitação das zonas em que residem todos esses estados de prazer, uma mistura dessas tonalidades muito sutis de bem-estar animal e de necessidades elementares compõe o estado estético. Esse só se produz nas naturezas capazes dessa plenitude generosa e transbordante de vigor animal; é sempre aí que se encontra o primeiro móvel.



O homem dos sentidos apaziguados, o homem cansado, esgotado, dessecado, (por exemplo, o sábio), é insensível aos dons da arte, porque falta-lhe a força geradora da arte, o impulso que vem da riqueza interior”. Nietzsche diz que é possível suscitar estados estéticos com a repetição afirmada, implícita num aumento de intensidade que denota um estado de embriaguez e ao mesmo tempo, de como a obra de arte age sobre o corpo. Essa ação é acompanhada de um acréscimo de potência sendo então que a “embriaguez” produzida corresponde a um estado de “mais força”. Um plus, de modo que a experiência afirmativa do eterno retorno é acompanhada de um salto, uma dança, um voo. Como Hölderlin, Nietzsche é sacudido pela descoberta de uma claridade violenta afirma Kossovitch. Nietzsche chama esse estado de “meio-dia”, dizendo: “Reencontrar em si o Meio-dia, estender acima de si o céu claro, brilhante e misterioso do Meio-dia; reconquistar a saúde meridional e o vigor secreto da alma; tornar-se cada vez mais vasto”.


É natural que esses estados de dança e voo da alma apontem para uma tremenda libertação. Zaratustra em estado de voo, curado, ouve de seus animais: “Não fales mais (...) faz para ti primeiro uma lira conveniente, uma nova lira! Pois, vê, oh Zaratustra! Para as tuas canções novas é necessário uma nova lira! – Canta e ferve, oh Zaratustra! Com canções novas curas a alma, para suportares teu grande destino”. O signo cintilante é a beleza, a leveza, o canto novo, este, é para os aristocratas do espíritos (Pondé no Congresso da Anpof de 2012). Há uma multiplicidade de reações afirmativas como princípios de uma nova disposição; isto não ocorre, diz Nietzsche, no escravo, onde os princípios da arte são mesquinhos e tristes. Mística e música, mística e arte, nesta perspectiva, estão associadas. Místico é o estado de alma mais elevado. Nietzsche propõe uma nova maneira de considera-lo. “Definição de místico: quem tem demasiada felicidade própria e procura uma linguagem para a sua felicidade, porque gostaria de dá-la”. Então, desse modo, o estado místico é estético: não basta dizer que a linguagem aqui é generosa, o essencial é sua índole ativa e criativa. É uma linguagem que movimenta, aciona! Para Nietzsche, “o estado estético possui uma riqueza superabundante de meios de expressão, ao mesmo tempo que uma extrema receptividade para as excitações e os signos. É o cimo do humor comunicativo e da possibilidade de traduzir, nos seres vivos – é a fonte da linguagem.

As linguagens têm aqui seu foco de origem, tanto a linguagem verbal como a linguagem dos gestos e dos olhares. O fenômeno mais completo é sempre o fenômeno inicial: nossas aptidões são a quintessência de aptidões mais amplas”. Entre o místico e o escravo, não só os modos de produção divergem, mas também os efeitos. Quietude e movimento, universal e singular, tais são os princípios da linguagem que se excluem.

É como movimento que Nietzsche pensa a arte: não só como produtora, mas por essência movimento. É por isso que a noção de obra de arte só pode ser festa!

*Sonia Regina Lyra, Psicóloga, CRP 08/0745, Analista Junguiana (Inst. Junguiano SP, Assoc. Junguiana do Brasil - AJB e Intern. Association for Analytical Psychology - IAAP). Mestre em Filosofia (PUCPR) e Doutora em Ciências da Religião (PUCSP). É presidente do ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião.sonia@ichthysinstituto.com.br


Publicado no Jornal Universidade - edição outubro de 2012

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