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Espiritualidade e Saúde em Hildegard de Bingen


Sonia Regina Lyra*

 Como se sabe, muitos santos entenderam a doença como um chamado de Deus para que intensificassem suas vidas em ambas as direções: a interior e a exterior. Entre eles, a médica, Hildegard de Bingen, deixou belíssimos tratados sobre o assunto usando especialmente os personagens bíblicos para exemplificar. Por exemplo, o paralitico do qual se fala no Evangelho de Marcos é uma imagem de nossa paralisação interior; o leproso reflete a incapacidade que temos de aceitar-nos como somos e em consequência o que não é aceito aflora “à flor da pele”, manifestando-se exteriormente em forma de lepra. Nas curas bíblicas em que Jesus atua, pode-se perceber o caráter psicossomático das doenças que, ainda hoje, podem ser curadas através desse encontro psico-espiritual.

No entanto, nem toda doença psíquica é de origem pessoal, isto é, provém do inconsciente pessoal, da história pessoal do indivíduo. Algumas delas provêm de uma instância mais profunda que, em psicologia analítica, se denomina inconsciente coletivo. Em João (9,3), ao tratar do cego de nascença, se diz que nem ele nem seus pais pecaram. Isto é, está cego para que se manifestem nele as obras de Deus. Além das questões anímicas que envolvem a doença que não é senão a outra face da saúde, pode haver outras finalidades. Toda doença pode converter-se no lugar em que se manifesta a ação divina. A doença então, ainda que possa ser a expressão exterior de um estado interior, fala da limitação e da caducidade humana, mas acima de tudo, ela é um convite a viver. Viver a vida em plenitude.


Assim acontece com Hildegard de Bingen que, ao longo de sua vida, passou por estados de saúde deploráveis, momentos que relata como preciosos para o conhecimento de seu corpo e a conexão deste com a alma. Em sua doença converte-se, com uma irradiação extraordinária, em profetisa na Alemanha. A doença também despertou nela uma sensibilidade especial diante da beleza da vida, da natureza e da música. Desse modo, doente – supostamente em depressão profunda – escreveu preciosos livros de ciências naturais e compôs belíssimas canções. Um indivíduo corporalmente enfermo pode gozar de uma excelente saúde psíquica e levar a cabo obras importantes.

Por outro lado, uma excelente saúde psíquica não é garantia da saúde do corpo, ainda que se possa dizer, que nós mesmos somos em grande parte responsáveis pela qualidade de nossa saúde. Uma vida moderada é muito favorável, dizem os santos. Os sintomas de cada enfermidade trazem consigo imagens que apontam o estado da alma e com isso, são absolutamente necessários para que ocorra um autêntico autoconhecimento.

Hildegard dá especial ênfase à prudência como princípio fundamental de uma boa saúde, tomando como base a Regra de São Bento para o qual, a virtude principal de um monge era a prudência. Os princípios válidos para a vida espiritual, segundo a santa, são os mesmos válidos para a saúde do corpo e para a saúde da alma. Para Hildegard, existe um estreito vínculo entre a vida espiritual e a saúde corporal. Seus conselhos para isso são detalhados e concretos, p. ex., a moderação na comida e na bebida são parte das práticas ascéticas aconselhadas sempre, evidenciando com isto que a vida espiritual não é uma mera abstração, mas sim inclui a materialidade do corpo no qual o próprio modo como se alimenta repercute sobre a saúde e afeta a vida espiritual. Naturalmente a obsessão pela comida, bebida, sexo ou outras, degeneram em dependência, evidenciando a evasão do sujeito diante dos problemas. Questões bem simples como o modo como alguém come ou bebe estão dando informações sobre o grau de transformação psíquica e/ou o grau de maturação espiritual do indivíduo. Assim, aquele que engole ao invés de comer, provavelmente estará repetindo esse modo em várias situações de sua vida; é possível mesmo que tenha perdido a capacidade de se admirar, de se encantar ou de se entusiasmar. 
Outra área abordada por Hildegard e outros espirituais é o exercício e o descanso; o trabalho e o ócio, que devem estar em uma ajustada combinação. O lema de vida beneditino do qual a santa se apropriou e que nos deixou como herança espiritual diz que não é possível uma vida espiritual sadia sem um estilo de vida igualmente sadio. Interessante é que um estilo de vida sadio, implica uma distribuição sadia do tempo e até mesmo da postura corporal durante o trabalho. Um tema de extrema importância e que abordaremos em outra oportunidade, é a sexualidade deixando desde já pontuado que para os espirituais a energia sexual é uma energia vital que, se simplesmente rejeitada, deixa um espiritual pela metade. É urgente e necessária a transformação da sexualidade em eros, pois este é o fertilizante da vida espiritual. É o erotismo o verdadeiro fertilizante da vida espiritual e o modo como é vivido pode dizer o que o indivíduo realmente está buscando e para onde se orienta sua vida. 

Vêm então os affectus animi. As paixões da alma, suas emoções, seus sentimentos para o tratamento dos quais uma nova ciência foi desenvolvida, chama-se psicologia. 
 

*Sonia Regina Lyra, Psicóloga, CRP 08/0745, Analista Junguiana (Inst. Junguiano SP, Assoc. Junguiana do Brasil - AJB e Intern. Association for Analytical Psychology - IAAP). Mestre em Filosofia (PUCPR) e Doutora em Ciências da Religião (PUCSP). É presidente do ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião.sonia@ichthysinstituto.com.br


Publicado no Jornal Universidade - edição setembro de 201



Hildegard de Bingen, a doutora da Igreja
 
Santa Hildegarda de Bingen, em alemão Hildegard von Bingen (Bermersheim vor der Höhe, verão de 1098 — Mosteiro de Rupertsberg, 17 de setembro de 1179), foi uma monja beneditina, mística, teóloga, compositora, pregadora, naturalista, médica informal, poetisa, dramaturga e escritora alemã, e mestra do Mosteiro de Rupertsberg em Bingen am Rhein, na Alemanha.


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Personalidade muito citada mas de fato pouco conhecida pelo grande público moderno, rompendo as barreiras dos preconceitos contra as mulheres que existiam em seu tempo, se tornou respeitada como uma autoridade em assuntos teológicos, louvada por seus contemporâneos em altos termos. Seus vários e extensos escritos mostram que ela possuía uma concepção mística e integrada do universo, ainda que essa concepção não excluísse o realismo e encontrasse no mundo muitos problemas. A solução para eles, de acordo com suas ideias, devia advir de uma união cooperativa e harmoniosa entre corpo e espírito, entre natureza, vontade humana e graça divina. Quis acima de tudo desvelar para seus semelhantes os mistérios da religião, do cosmos, do homem e da natureza. Para ela o universo era a resposta para as dúvidas da humanidade, e a humanidade era a resposta para o enigma do universo. Mas, como ela escreveu, se a humanidade não fizesse a pergunta, o Espírito Santo não poderia respondê-la. Foi a primeira de uma longa série de mulheres influentes tanto na religião como na política.
 
Além de mística, teóloga e pregadora, foi poetisa e compositora talentosa, deixando obra de vulto e original. Também fez muitas observações da natureza com uma objetividade científica até então desconhecida, especialmente sobre as plantas medicinais, compilando-as em tratados onde abordou ainda vários temas ligados à medicina e ofereceu métodos de tratamento para várias doenças. Em 10 de maio de 2012 o papa Bento XVI reafirmou publicamente sua santidade. Sua vida e obra vêm recebendo atenção crescente desde a segunda metade do século XX; seus escritos começaram a ser traduzidos para várias línguas, muitos livros e ensaios já lhe foram dedicados e foram feitas diversas gravações com sua música.
(fonte: wikipedia.org)

 

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