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Nietzsche, Jung e a Morte de Deus


Sonia Regina Lyra*

 Essa polêmica questão da morte de Deus vem gerando debates filosóficos e psicológicos e, juntamente com eles, uma tremenda inquietação intelectual, provocada pela recém-lançada obra: Jung leitor de Nietzsche: acerca da “morte de Deus” (LYRA, 2012). Para provocar a nossa reflexão, pensemos numa interpolação apócrifa de Lucas (Lc 6,41), citada por JUNG: “Ó homem, se sabes o que estás fazendo, és feliz; se, porém, não sabes o que estás fazendo, és um maldito e um transgressor da lei” (PROO, XI, 435). Na linguagem psicológica, fica traduzido mais ou menos assim: Ó homem, se és consciente, és bendito, mas se és inconsciente, és maldito. NIETZSCHE por sua vez, fala de um estado semelhante à inflação psicológica, quando aborda um estilo filosófico: “Um artista que não quer descarregar seu sentimento acumulado em obras e aliviar-se, mas sim transmitir o sentimento de acumulação, é bombástico, e seu estilo é aquele inflado” (A, IV, 332). O homem inconsciente é inflado, isto é, está geralmente possuído por uma hybris, um estranho estado de grandeza que o subjuga compensando o nosso velho e conhecido complexo de inferioridade e de falta de valor. Esse modo inflado com que se revela o Zaratustra, de Nietzsche, numa linguagem exacerbada para mais ou para menos (homens superiores ou último homem, por exemplo) é justamente o que Jung exalta ao longo dos Seminários, interpretando como a principal característica da patologia de Nietzsche em consequência da “morte de Deus”.

A leitura que Jung faz do Zaratustra de Nietzsche o inclui entre os malditos, ou seja, entre os que não sabem o que estão fazendo uma vez que opta por ver Nietzsche como mórbido (ainda que genial), como resultado da inflação inconsciente, pois, segundo Jung, Nietzsche não está em condições de discernir entre consciente e inconsciente. É essa sua visão, que, tornando-se unilateral, deixa de ver a inflação como expressada por Nietzsche, ou seja, como um estilo capaz de transmitir o sentimento de acumulação, presente na obra de arte poética e filosófica, usado conscientemente, o que incluiria Nietzsche entre os “benditos”. Como exemplo desse estilo, pode-se citar Nietzsche:

 
Toda arte, toda filosofia pode ser vista como remédio e socorro da vida em crescimento ou em declínio: elas pressupõem sempre sofrimento e sofredores. Mas existem dois tipos de sofredores, os que sofrem de superabundância de vida, que querem uma arte dionisíaca e, desse modo, uma compreensão e perspectiva trágica da vida – e depois os que sofrem de empobrecimento da vida, que requerem da arte e da filosofia silêncio, quietude, mar liso, ou embriaguez, entorpecimento, convulsão (NCW, Nós, Antípodas, 59). 
 
É a partir dessa compreensão da experiência filosófica e poética de Nietzsche, como superabundância, em Jung com sentido de excesso, que o psicólogo interpreta a “morte de Deus” anunciada por Zaratustra como a expressão da hybris luciferina de Zaratustra e, consequentemente, de Nietzsche, com o qual Zaratustra, segundo o psicólogo, está identificado. Pelo prisma de uma primeira inocência, ou seja, de uma insciência, na linguagem de Nietzsche, o filósofo está mesmo patologicamente inflado, uma vez que, para Jung, Nietzsche é Zaratustra e esse é um símbolo do Self. Nesse caso, não há diferenciação entre consciente e inconsciente, e Nietzsche está entre os “malditos” do logion acima citado. Dessa perspectiva, a visão de Jung é coerente, ainda que unilateral. Por outro lado, a mesma experiência, vista sob o prisma de uma segunda inocência, como é entendida por Nietzsche, ou de uma consciência ampliada, na linguagem de Jung, mostra que Nietzsche sabe o que é uma inflação e, mais que isto, usa conscientemente esse modo de ser, como um estilo. E aqui, o indivíduo Nietzsche, autor de Assim falou Zaratustra, experimenta, ao contrário do que propõe Jung, um processo de individuação, de uma re-ligação tal consigo mesmo que ficam escancaradas as polaridades, as quais continuamente interagem, ora afirmando, ora negando, numa espécie de jogo de sobe e desce, expressão plena dos paradoxos. União dos opostos, no entender desta pesquisadora, não significa anulação dos opostos, mas a percepção refinada de que sequer existem opostos, mas sim uma sutil gama de gradações. 
 
Essa segunda inocência, na filosofia de Nietzsche, surge como consequência da “morte de Deus” e como sinônimo de ateísmo. Naturalmente, como experiência, ela possivelmente não será experimentada por muitos, uma vez que na grande maioria dos indivíduos, predomina o caos e o desequilíbrio de não ter mais nenhum suporte, ou o que quer que seja para “se agarrar”, nenhum Deus e sim, o nada, o niilismo.

Publicado no Jornal Universidade - edição agosto de 2012


*Sonia Regina Lyra, Psicóloga, CRP 08/0745, Analista Junguiana (Inst. Junguiano SP, Assoc. Junguiana do Brasil - AJB e Intern. Association for Analytical Psychology - IAAP). Mestre em Filosofia (PUCPR) e Doutora em Ciências da Religião (PUCSP). É presidente do ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião.sonia@ichthysinstituto.com.br

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