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Alienação e Experiência Religiosa


Sonia Regina Lyra*

 Estados de inflação e alienação são partes estruturantes do ciclo da vida psíquica. Na raiz de todas as formas de violência, reside a experiência da alienação – uma rejeição muito difícil de suportar. Primeiramente, surge a rejeição por parte dos pais, quando a criança não se sente amada e acolhida, gerando assim um sentimento profundo de menos valia, incapacidade, sentimentos de inferioridade, entre outros. Em seguida, em termos psicológicos, a rejeição é sentida pela vida, pelo não direito de nascer e ser parte integrante da vida. O vínculo entre o ego e o self (instâncias psíquicas) sofre os danos causados pelas perdas e pelos nãos, o que provoca a alienação entre ambos. A parte separa-se do todo. Pessoas que não se julgam dignas de amar e ser amadas sofrem pela não aceitação de si mesmas. Sabe-se, porém, que a restauração do vínculo ego/self ou eu/outro só se dá através do sentimento de aceitação. No estado de alienação, o ego não só perde a identificação com o self – o que é desejável – como também se desvincula dele – o que é deveras indesejável. A conexão entre ego e self tem importância vital para a saúde psíquica. Proporciona fundamento, estrutura e segurança ao ego, além de fornecer a este último energia, interesse, significado e propósito. Quando a conexão se quebra, o resultado é o vazio, o desespero, a falta de sentido e, em casos extremos, a psicose ou o suicídio. É peculiar a esse estado de alienação, o fato de estar diretamente ligado com o sentimento de rejeição.



Nas experiências religiosas vê-se a possibilidade do resgate, socorro, salvação, vindo justamente deste estado de alienação. Em São João da Cruz foi denominado a noite escura do espírito, Kierkegaard denominou desespero e Jung denominou de derrota do ego. Todos esses termos indicam o mesmo estado de alienação psicológica. Observa-se em várias partes da documentação relativa às experiências religiosas, um profundo sentimento de depressão, de culpa, de pecado e de falta de valor, assim como a completa ausência de qualquer sentimento de apoio ou fundamento transpessoal para a existência de o indivíduo se apoiar. O aspecto positivo da experiência leva a um crescimento maduro e consciente, mas no seu aspecto negativo pode levar o indivíduo a uma desestruturação psíquica. Na história da humanidade o homem busca defesas contra a aniquilação psíquica, e, na prática religiosa, não é diferente, tanto que os rituais existem justamente com o sentido de oferecer proteção contra as forças destruidoras da psique. Segundo E. Edinger, o propósito original das cerimônias religiosas de todos os tipos parece ser o de propiciar ao indivíduo a experiência de um relacionamento significativo com essas categorias de natureza transpessoal. A religião, neste sentido, constitui a melhor proteção coletiva disponível contra a inflação e a alienação. E em sentido individual trata-se da busca do indivíduo do autoconhecimento que implica uma transformação da energia psíquica que conduz ao desenvolvimento da personalidade. Neste caso o que se sugere é a psicoterapia.!

Publicado no Jornal Universidade - edição julho de 2012

  *Sonia Regina Lyra, Psicóloga, CRP 08/0745, Analista Junguiana (Inst. Junguiano SP, Assoc. Junguiana do Brasil - AJB e Intern. Association for Analytical Psychology - IAAP). Mestre em Filosofia (PUCPR) e Doutora em Ciências da Religião (PUCSP). É presidente do ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião.sonia@ichthysinstituto.com.br

 

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