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Os Sonhos e a Morte


Sonia Regina Lyra*

 Para a Psicologia Analítica o tema os sonhos e a morte não aborda especificamente o final da vida biológica de um indivíduo uma vez que a vida psíquica do indivíduo parece não prestar muita atenção ao término abrupto da vida do corpo pois o inconsciente se comporta como se a vida psíquica do indivíduo simplesmente continuasse. No entanto há sonhos que indicam simbolicamente o fim da vida corporal e a continuação explícita da vida psíquica após a morte. Pode-se argumentar que esse tipo de sonhos apenas realiza um desejo. Para Jung, porém, os sonhos retratam um evento psiquicamente natural, completamente objetivo, não influenciado pelos desejos do ego.



O que nos interessa pontuar aqui são os sonhos que ocorrem no processo de individuação, isto é, no processo que conduz o indivíduo ao centro da alma, especialmente na segunda metade da vida.


Jung declara que físico concreto não é o único critério de verdade e que há também verdades psíquicas que não se pode contestar, provar ou explicar de forma física. A psique é um fator autônomo e até certo ponto independe dos dados físicos. 
Pacientes em estado terminal e indivíduos em processo de profunda transformação relatam sonhos semelhantes, ambos relatam experiências mais ou menos assim: “Eu flutuava num longo túnel que de início parecia estreito mas depois foi se alargando. Acima ele era vermelho-escuro e, à minha frente, azul negro. Quanto mais para cima eu olhava, mais luminoso ele ficava. A sensação de não ter peso era maravilhosa”1. É um sonho que relata uma passagem de um estado para o outro, de um lugar para o outro.

Outro caso: “Parece que acordo e vejo um círculo colorido que é lançado sobre a cortina da janela de nosso quarto... Ando com o maior cuidado - porque senão posso cair nele - em torno desse círculo, que parece negro. Evidentemente, é um fosso, um buraco negro”2. Aqui o círculo é uma imagem do Self que paradoxalmente ocasiona atração e medo. Isto significa que o medo da morte é o medo do Self e do confronto íntimo e final com ele.

Um caso, pouco antes da pessoa morrer: “Vejo um quadrado no meio de um quadro. É uma espécie de arca medieval, da qual emanam raios de luz vermelha. Esses raios apontam para o céu, pintado de amarelo e azul bem suaves, com um sol radiante (no canto superior direito do quadro)”3. Essa arca lembra um caixão e dela saem raios de luz, ou seja, símbolos de uma iluminação súbita, que apontam para um céu azul-claro, isto é, uma imagem do Além; enquanto o sol que surge é um símbolo da fonte cósmica de luz da consciência. 

A passagem escura, o buraco negro, o túnel, sugerem uma morte e/ou um renascimento, símbolo este que, em essência, indica uma experiência puramente psíquica de confinamento temporário, de medo, de escurecimento, misturando-se assim, de modo arcaico, com a idéia de túmulo, caixão e tumba num plano concreto. 
Há sonhos que dão indícios de uma profunda depressão em momentos de passagem, mas, o decisivo mesmo é o grau de maturidade psicológica da pessoa antes da morte e a questão dela ter ou não desenvolvido uma relação com o Self. Outro caso: “Uma senhora vê uma vela acesa no parapeito da janela do seu quarto no hospital e percebe que de repente a vela se apagava. Envolvida pela escuridão, ela sente medo e ansiedade. Subitamente, a vela acende sozinha do outro lado da janela e ela acorda”4. Neste caso a paciente morreu neste mesmo dia e completamente em paz. A passagem neste sonho contém um momento de ansiedade e medo momentâneo, bastante breve. 

Uma outra senhora pouco antes de morrer sonhou: “Arrumei duas malas, uma com minhas roupas de trabalho e outra, própria para longas viagens, com minhas jóias, meus diários e fotografias. A primeira é para o Continente, a segunda para as Américas”5. Levar seus tesouros psíquicos para uma terra mais longínqua dá indícios de também esta jornada é incomum, isto é, não é o “continente”. 
O tema da jornada, da viagem, da descida ao mundo subterrâneo aponta para os níveis mais altos possíveis de realização para o processo de individuação. O sepultamento espacialmente orientado, típico de várias culturas e ritos também sugere essa ideia, ou seja, a ressurreição é, ao mesmo tempo, como um novo nascer do sol, uma vida renovada, uma vez que o sol simboliza uma consciência renovada. O tema é complexo e os exemplos se desdobram e diferem conforme as culturas e tradições, daí a grande necessidade de estudar individualmente seu simbolismo e então associá-lo às tradições.

*Sonia Regina Lyra, Psicóloga, CRP 08/0745, Analista Junguiana (Inst. Junguiano SP, Assoc. Junguiana do Brasil - AJB e Intern. Association for Analytical Psychology - IAAP). Mestre em Filosofia (PUCPR) e Doutora em Ciências da Religião (PUCSP). É presidente do ICHTHYS Instituto de Psicologia e Religião.sonia@ichthysinstituto.com.br


Publicado no Jornal Universidade - edição maio de 2012
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